9.12.20

O Homem Que Surpreendeu a Todos

O Homem Que Surpreendeu a Todos || Disponível a partir do dia 10 de dezembro de 2020 
Crítica por Helen Nice

Imagem: Reprodução

Prepare-se para, você também, se surpreender com este drama siberiano, extremamente realista e comovente, que envereda por caminhos místicos e questões polêmicas. Natasha Merkulova e Aleksei Chupov ousaram em um roteiro que aborda uma situação limite e um assunto controverso. Até que ponto a eminência da morte levaria uma pessoa a assumir mudanças drásticas em sua vida na tentativa de enganar o destino? Valeria a pena sacrificar as relações familiares, o trabalho e colocar-se em risco, desafiando preconceitos, homofobia e superstições? Vida e morte em um jogo surreal. Doenças ditas incuráveis, poderiam ser curadas por práticas não convencionais? O filme é conciso e mostra o essencial, sem muito floreio. Uma história a ser contada de maneira direta e compacta, linearmente. 

Egor (Evgeniy Tsyganov) trabalha como guarda florestal em um parque numa região isolada da Sibéria com uma estrutura bem precária. Vive com a mulher grávida (Natalya Kudryashowa), um filho pequeno e o sogro velho e doente em um casebre sem conforto algum. Cria gansos e planta batatas como forma de subsistência. Tem uma relação próxima com a comunidade e os aldeões que o tratam pelo nome completo como forma de respeito. Ao ser diagnosticado com um tumor em fase terminal, a princípio ele esconde o fato da família. Começa os preparativos para o inevitável, investindo dinheiro para o funeral e se certificando que sua esposa poderia retirá-lo. 

Imagem: Reprodução

Um mal súbito alerta a todos e ele se vê obrigado a contar que tem aproximadamente dois meses de vida. Fala de maneira fria e instrui a esposa a requisitar o auxílio pela perda do ganha pão. A esposa desesperada o obriga a procurar uma segunda opinião médica. O diagnóstico se confirma. Em pânico ela o leva até um xamã, espécie de bruxa local que tem a fama de ter curado um cego. Ela o benze em troca de dinheiro. Mais tarde, eles se reencontram e a curandeira alcoolizada lhe conta uma história de um pato Jumbo que rolou na terra para ficar da cor da fêmea e assim ludibriar a morte. 

Essa história absurda fica em seu subconsciente e no desespero perante o fim eminente, Egor decide se travestir de mulher para não ser reconhecido pela morte. Aquele homem rude e austero de repente passa a usar meia calça, vestido e maquiagem. Uma desgraça para a família. A morte próxima faz aflorar seus desejos sexuais mais contidos. A reação da esposa, do filho que sofre preconceito dos coleguinhas, do sogro e da pequena comunidade é de absoluto desprezo e discriminação. Egor é cruelmente escorraçado, espancado, expulso de casa, estuprado e quase morto. É salvo pela esposa e, por um muito pouco consegue sobreviver. Preconceito, homofobia, violência. O pior das pessoas vem à tona. 

O filme envereda por um caminho de situações estranhas e absurdas embaladas por música pop russa. Egor se fecha em si e vive sua dor e angústia em silêncio absoluto. Sem explicações, se tranca em sua sauna e quando é forçado a se expor, exibe sua nova aparência que causa incômodo. Não só o câncer é exposto, mas suas vestes e seu sofrimento. A doença que faz vítima não só aquele que a carrega, mas toda a família. Aquele homem que aquecia as orelhas da esposa amada agora precisa de amparo. E de um milagre!

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