3.11.20

Pai

Pai || Estreia em breve 
Crítica por Helen Nice

Imagem: Divulgação

Uma mulher arrasta seus filhos, uma garotinha e um rapaz adolescente, em direção à uma fábrica. Em frente aos trabalhadores, ela ameaça praticar um ato extremo, caso os direitos trabalhistas de seu marido, despedido há dois anos, não sejam atendidos. Esta mãe, Biljana Stojkovic (Nada Sargin), no limite de suas forças para sobreviver à pobreza extrema, encarando a própria fome e dos filhos, ateia fogo ao próprio corpo, como forma de protesto. Como consequência, é levada ao hospital e, os filhos em choque, ficam sob a guarda da justiça, à mercê de funcionários corruptos do serviço social do pequeno vilarejo. Ao ser informado do ocorrido, o pai Nikola Stojkovic (Goran Bogdan) sai correndo desesperado do trabalho informal que presta para garantir o pão de cada dia. 

Neste primeiro ato impulsivo já temos uma prévia do caráter deste homem que não mede esforços pela família, apesar de infrutíferos. Caberá a ele juntar os pedaços desta família destruída pelo sistema. De um lado teremos este pai humilde e obstinado e do outro o oficial de justiça, Vasiljevic (Boris Isakovic) que manda crianças adotivas para famílias adotantes de parentes e amigos em sua própria aldeia. Cada família recebe 40 mil dinares dos quais 30% vai para seus bolsos. Todos sabem que mais de 30 crianças já foram mandadas ilegalmente, porém tem medo de denunciar. Decidido a lutar para ter seus filhos de volta, este homem não mede esforços e faz uma jornada à pé de 300 km entre seu vilarejo e Belgrado para entregar um documento ao ministério e provar que se importa com sua família. Mas a exploração pelo sistema e a pobreza faz com que este homem nem tenha conhecimento de seus direitos e não tenha voz para exigi-los. Uma verdadeira odisseia como dos antigos heróis. 

Imagem: Divulgação

Escrito e dirigido por Srdan Golubovic, este drama encanta pela objetividade e simplicidade, não apelando para o sentimentalismo excessivo. Goran está excelente no papel do pai, um homem calado que mostra nos traços cansados, nas vestes humildes, nos ombros arqueados e pés calejados, a vida sofrida que leva e a determinação em manter seu único bem de valor, sua família. O caminho é difícil, as leis, as intempéries, as adversidades de um local sem estrutura alguma vão se sucedendo. Mas nada o faz desistir. A cena com o cão é de arrancar lágrimas e mostra o quanto ele preza a vida. 

O filme descreve um regime de poder, onde o ser humano não é respeitado e ao se sentir impotente, este pai usa faz o que pode para lutar. Seu ato atrai a atenção de pequenos jornais locais e da tv, mas ainda assim não dá a ele voz suficiente para sair do anonimato. É uma luta solitária e não importa se será bem sucedida ou não, o amor pelos filhos lhe dá forças. A cena do reencontro com os filhos é emocionante. Pelo caminho, Nikola encontra atos de solidariedade como o rapaz do caminhão que lhe fala de fé e esperança. Por outro lado, também cruza com opiniões contrárias, como o companheiro do hospital que lhe diz que não vale a pena lutar pela família pois ela o abandonará no final. As duas faces de um povo sofrido. Este pai representa um País marcado por lutas e incertezas. 

A Sérvia, antes parte da Iugoslávia, se esfacelou pelas lutas separatistas e resultou em um regime sem bases sólidas, onde a burocracia e o poder do Estado geram corrupção e falta de estrutura básica para o povo. A incerteza quanto ao futuro, a falta de trabalho com remuneração digna, a escassez de governantes que defendam o povo e não pensem apenas em benefício próprio é a realidade atual. Um retrato contundente. Uma luta comovente. E a esperança e incerteza como ponto final!

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