24.11.20

M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida

M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida || Estreia dia 3 de dezembro de 2020
Crítica por Helen Nice

Imagem cedida pela Paris Filmes

Maurício (Juan Paiva), um jovem negro da periferia do Rio de Janeiro, conseguiu, a duras penas, utilizando o sistema de cotas, ingressar na tão sonhada Faculdade de Medicina. O rapaz quer seguir os passos da mãe Cida (Mariana Nunes) que trabalha como auxiliar de enfermagem. Sua mãe é seu grande exemplo de garra e determinação. Trabalhava como faxineira no hospital, estudou enfermagem e foi trabalhar na clínica do Dr. Salomão (Pietro Mario). Agora, no fim da vida, o renomado médico a tem como enfermeira particular em sua luxuosa residência. Dr. Salomão, ou Sal como Maurício o trata, o tem como um neto e se orgulha de sua conquista. Destaque para a interpretação de Mariana Nunes como essa mãe que representa tantas mães que sofrem e lutam para dar estudos aos filhos, e sofrem por não saber qual destino eles terão numa sociedade tão desigual. 

No primeiro dia de curso, Maurício se atrasa para a aula de anatomia e chama atenção dos colegas de classe por ser o único negro da turma. Como ele, na faculdade, somente os funcionários ou os corpos doados para estudo. Triste realidade! Ao ser confundido com um funcionário por um colega de turma que fará de tudo para prejudicá-lo, Maurício já percebe que ali ele é um "peixe fora d'água" - o cotista, como o tratam. Mesmo assim ele procura se enturmar com Suzana (Giulia Gayoso) e Domingos (Bruno Peixoto), jovens de classe média da zona sul do Rio. A mãe de Suzana não reagiu bem à amizade da filha com um rapaz "dessa cor". 

Imagem cedida pela Paris Filmes

Na aula, Maurício conhece M8 (Raphael Logan), o corpo que será seu objeto de estudos durante o semestre. A cena com os três corpos negros, nus, indigentes doados para estudo é impactante. Mas parece que somente Maurício se sente incomodado por serem todos negros. Ele, que cresceu frequentando terreiros da religião afro, sente algo estranho ao ver M8. Muito interessante como o roteiro, do também diretor, Jefferson De e Felipe Sholl, baseado no livro de mesmo título de Salomão Polakiewicz, se utiliza de elementos sobrenaturais do sincretismo religioso de forma branda e natural, sem apelar para o terror, e mostra a diversidade cultural muito presente no Rio de Janeiro e em grande parte do Brasil. 

O roteiro caminha mostrando a rotina do jovem nas ruas do Rio, apresentando os desníveis sócio- econômico, o lugar do negro de baixa renda na sociedade e a maneira preconceituosa como é visto. Passando pelo centro da cidade ele vê mães que protestam com cartazes sobre os desaparecidos de 13 de maio. Elas buscam respostas sobre o paradeiro de seus filhos e alertam sobre o descaso das autoridades em solucionar os casos. Maurício cria uma verdadeira obsessão por descobrir quem foi em vida aquele corpo que agora carrega apenas letra e número preso aos pés. No centro, o rapaz recebe a missão espiritual de ouvir "os mortos" e decide dar um enterro digno àquele corpo que iria para uma vala comum da prefeitura, dando descanso à sua alma e simbolizando todos os jovens desaparecidos. 

Imagem cedida pela Paris Filmes

Uma forma de ressignificar sua luta diária para vencer o preconceito estrutural no qual está imerso. Como o formol que impregna em tudo tirando até suas digitais, o preconceito permeia nosso dia a dia reduzindo a identidade de uma raça. O próprio policial negro adverte Maurício: "essa hora em bairro de playboy", como um lembrete sobre seu lugar na sociedade. O filme mostra as diferenças brutais entre os bairros nobres e as comunidades, como se ao pobre e negro coubesse apenas aquele lugar periférico, excludente, que não deve ser visto e consequentemente, não deve ser questionado. O grafite na entrada da comunidade alerta e não deixa que a memória de Marielle seja esquecida. 

O filme incomoda e faz pensar nas mínimas atitudes que discriminam e sufocam. Se passa no Rio, mas poderia ter sido ambientado em qualquer parte do Brasil. Maurício representa as muitas faces sem nome que são excluídas simplesmente pelo tom da pele. M8 é apenas um dos jovens negros que a cada 23 minutos é morto ou desaparece sem deixar pistas. Famílias sofrem. Até quando?? O elenco conta ainda com nomes importantes como: Zezé Motta, Lázaro Ramos, Ailton Graça, Léa Garcia, Henry Pagnoncelli, entre outros. M8 recebeu o Prêmio de Melhor Filme de Ficção por voto popular no Festival do Rio.

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