31.10.20

Nadando até o mar se tornar azul

Nadando até o mar se tornar azul || Estreia em breve 
Crítica por Helen Nice

Imagem: Divulgação

Nadando até o mar se tornar azul, documentário do diretor Jia Zhangke, nasceu de um encontro literário ocorrido em 2019 reunindo importantes escritores e acadêmicos na província de Shanxi, na China. O local de nascimento do diretor Jia, uma região rural, serve de cenário para a divagação poética em 18 capítulos que mapeiam a história da sociedade chinesa desde 1949. O documentário é dedicado a quatro escritores, Ma Feng (memórias do falecido), Jia Pingwa (1950), Yu Hua (1960) e Liang Hong (1970), que simbolizam quatro épocas distintas da história da China, abrangendo quatro gerações e suas transformações culturais. 

Com planos diretos, pessoas falando direto para a câmera, temos longas entrevistas, por vezes emotivas, por vezes saudosistas e repletas de lamentos pessoas. Eles falam sobre as próprias vidas e careiras, transformando o filme em uma bela trajetória espiritual. Falam das regiões negligenciadas pelo regime que viram a população mais jovem migrar para os centros mais desenvolvidos. O documentário mostra a vida rural, de comunidades unidas por um ideal e a evolução afastando as pessoas. O simbolismo das primeiras cenas, com mulheres moldando bolinhos de arroz enquanto os idosos refletem sobre um passado em que eram unidos por uma causa, como salvar o solo e produzir alimentos em abundância. 

Os relatos semeiam lembranças, reminiscências, dores, tristezas, sorrisos, afetos, boas recordações. Como nas antigas histórias dos avós ao redor da mesa antes da chegada da tecnologia. Os relatos seguem em capítulos comoventes como o próprio título "Nadando até o mar se tornar azul" e aborda a trajetória cultural da China adornados por uma trilha sonora de obras clássica. O simples e rural em contraponto com jovens da geração Z chinesa com seus olhos vidrados nas telas dos smarthphones. A transformação de uma economia predominantemente agrária para a atual realidade, moderna e industrializada. Temos um mapa simbólico da transformação de uma nação, com caráter histórico, crítica política, análise econômica e sentido psicológico. 

Nesta obra, o cineasta Jia Zhangke encerra sua Trilogia dos Artistas, iniciada por Dong (2006) e Useless (2007). Uma bela obra nostálgica que fecha um ciclo. Um registro para futuras gerações.

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