26.10.20

Miss Marx

Miss Marx || Estreia em breve
Crítica por Helen Nice

Imagem: Divulgação

O contraste das ideias progressistas e revolucionária de seu pai Karl Marx e a sociedade dogmática e patriarcal do séc. XIX é o pano de fundo deste filme de ficção inspirado em fatos reais, porém claramente floreado, com o propósito de dramatizar a vida de Jenny Julia Eleanor Marx. Feminismo e socialismo embalados por punk rock. Enquanto Karl Marx, juntamente com seu amigo e colaborador Friedrich Engels, traçava as bases das teorias de uma sociedade justa para o proletariado, sua filha caçula apelidada de Tussy, era tratada como uma bonequinha e criada com todos os condicionamentos e padrões da época vitoriana, com aulas de piano, canto, desenho; sendo preparada para servir seu homem. Apesar disso, Eleanor cresceu com ideias de independência e individualidade, mesmo fazendo parte da burguesia e desfrutando de suas regalias. Ao menos em teoria ela se considerava livre. A contradição era parte de sua vida. Contestava a sociedade sendo parte da mesma. Militante ferrenha ao se tratar dos direitos das mulheres, tradutora e ativista, em um mundo dominado por homens. 

O filme, dirigido por Susanna Nicchiarelli, começa com o funeral de Marx em Londres e o discurso da filha que assumirá o legado do pai e encabeçará a luta pelos direitos dos trabalhadores, a conscientização sobre os acidentes de trabalho nas linhas de produção, o ambiente insalubre, a exploração infantil e os direitos igualitários entre homens e mulheres. A atriz britânica Romola Garai está excelente no papel de Eleanor. Seguindo um formato totalmente didático e acadêmico, é o filme perfeito para aqueles que se interessam por fatos históricos, misturados à ficção, na medida que vai mesclando fotos em branco e preto e cenas de época com monólogos de Eleanor encarando a câmera e falando direto ao público sobre as ideias de seu pai. 

Imagem: Divulgação

Porém, apesar de todo este discurso feminista, Eleanor não se livrou dos condicionamentos e armadilhas do amor ao conhecer e se envolver com o socialista Edward Aveling. Edward era um homem inconsequente, sem controle financeiro, mulherengo, mentiroso assumido, achegado ao tabaco e ópio e envolveu Eleanor numa relação de submissão. Em paralelo, veremos as relações conturbadas da escritora e feminista Olive Schriner e da própria mãe falecida de Eleanor aceitando as infidelidades, já que Marx teve um filho bastardo com a funcionária da família Helena Demuth. A luta que Eleanor trava para as melhorias da sociedade é tão grande quanto a luta consigo mesma por não conseguir se livrar de um relacionamento abusivo e um amor doloroso. 

A fotografia do filme é muito bem construída, ambientada na época da revolução industrial londrina. A trilha sonora mistura peças de piano clássicas e tradicionais com o arrojo do punk rock. O figurino retrata uma mulher contida por roupas sóbrias e sufocada por pesados xales. A cena da dança com roupa esvoaçante mostra o desejo de liberdade. O desfecho é trágico e melancólico para uma jovem de apenas 43 anos de idade. Apesar de terem se passado tantos anos, a luta de Eleanor ainda é bem atual e suas reinvindicações cabem nos dias de hoje.

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