20.10.20

17 Quadras

17 Quadras || Estreia em breve 

Crítica por Helen Nice 

 

Imagem: Zurich Film Festival

 

Este documentário americano contundente e emocionante fará parte do catálogo da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em 96 min. de gravações caseiras iremos acompanhar o dia a dia dos Sanford, uma família afrodescendente de baixa renda e seus desafios na luta contra a violência gerada pelo vício. Assistiremos o desenrolar da vida real durante duas décadas e o que veremos será um close cruel das comunidades pobres americanas, muito similar à nossa realidade nas periferias e classes mais carentes. Um retrato devastador que chega em um momento importante do #BlackLivesMatter como uma forma de protesto e conscientização das desigualdades. O título "17 Blocks" é uma referência à distância entre a casa da família e o Capitólio. Distância física e de realidade de vida. 

 

Você já pensou como seria a história de sua vida, caso ela fosse gravada por 20 anos? Muitas mudanças, e com o tempo as perspectivas se perderiam e a noção dos fatos não teriam conexão, ficando apenas fragmentos de memórias e situações. Aqui, o cineasta teve o registro de vida de 4 gerações da família começando em 1999 e alinhou de tal forma a dar sentido aos fatos, criando um roteiro que justifica e expões, sem intromissão emocional ou visão crítica. Começamos por conhecer os irmãos Emmanuel, o caçula, e Smurf, o primogênito, jogando basquete em uma quadra pública. Emmanuel recebe uma câmera e se propõe a filmar a intimidade da família e o local onde moram, uma comunidade a sudeste de Washington. Em pouco tempo, todos estão envolvidos nas filmagens, gerando aproximadamente 1000 horas de gravação, que depois de organizadas mostraram coerência entre fatos, escolhas de vida, decisões boas ou equivocadas, mudanças e tudo que impactou a realidade desta família. 

 

Imagem: Zurich Film Festival
 

O resultado final é muito bom e prende a atenção do espectador, gerando uma inquietude por saber que aquilo tudo é real. Já nas primeiras cenas vemos a mãe Cherryl Sanford chorando, em um relato emotivo ao entrar na casa onde passou sua infância e juventude. Pelo local percebemos que ela teve um certo padrão de vida, estudou em boas escolas, mas isso tudo se perdeu com a entrada precoce em um mundo violento. O relato do momento que sua trajetória de vida foi brutalmente destruída é de causar pesar e revolta. Na sequência, temos a cena de um funeral. Estes dois pontos se conectam e darão início à narrativa do documentário, seguindo uma linha cronológica dos fatos. Sabemos que um elemento da família morre. Quem e como - descobriremos no decorrer do documentário. A família Sanford é composta pela mãe Cherryl, que cria sozinha os filhos Akil "Smurf" Sanford-Durant, Denice Sanford- Durant e Emmanuel Sanford-Durant. 

 

Cherryl tem nas drogas a fuga da triste realidade, dando um péssimo exemplo aos filhos. Smurf abandona os estudos e envereda no mesmo caminho, se envolvendo com más companhias, Denice se esforça para mudar seu destino familiar. Já Emmanuel, meigo e cativante, tem ideias claras sobre evitar as drogas e fugir da violência do entorno onde vive. Estudioso, quer se formar e ser o orgulho da família, seguir a profissão de bombeiro, casar, ter filhos. "As drogas fazem mal, te fazem desistir de tudo e se tornar um fracasso." O documentário dá, naturalmente, a Emmanuel o papel de protagonista da história, como a esperança de quebrar o círculo vicioso ao qual aquela família parece estar fadada. 

 

Os erros dos pais se repetem nas gerações futuras. Apesar do amor, da proximidade e do companheirismo, parece difícil evitar o ciclo de dor e tragédias pessoais. As imagens do sangue sendo limpo das paredes com as crianças olhando é de cortar o coração. O documentário tem uma perspectiva de respeito, sem julgamentos de culpados ou responsáveis. Os sentimentos são narrados apenas, sem intromissão. Esta visão torna a história mais sensível e empática. E sempre fica a mensagem de amor, aceitação, perdão. Dando ao ser humano os créditos de sua existência, com a possibilidade de mudar e seguir em frente, apesar dos pesares. Vale conferir.

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