2.9.20

O Vento Muda

O Vento Muda || Crítica por Helen Nice

Imagem cedida pela TZM Entretenimento

Este drama franco-suíço dirigido por Bettina Oberli faz parte do Panorama Digital do Cinema Suíço. Apesar do tema parecer um tanto clichê à primeira vista, o resultado final é bem surpreendente e me agradou bastante. Pauline (Mélanie Thierry) e Alex (Pierre Deladonchamps) vivem em uma fazenda eco sustentável em uma região bucólica e, aparentemente, tem uma relação afetiva estável, de cumplicidade. Na cena inicial eles saem na chuva para socorrer uma vaca que está prestes a dar à luz. Um pequeno detalhe passa despercebido - as gestações de suas vacas não têm tido um desfecho feliz e os partos resultam em natimortos. Apesar de cuidar da fazenda com imenso respeito à Natureza, opondo-se inclusive a receber ajuda da veterinária, irmã de Pauline, e suas técnicas industriais, as mortes continuam.

O filme mostra em sua essência a fragilidade da vida e das relações. Vida e morte estão juntas, começo e fim fazem parte do mesmo roteiro. Por iniciativa de Pauline, o jovem casal entra em um programa de ajuda humanitária que recebe crianças e jovens ucranianas da região de Chernobyl. Com a saúde afetada por conta da radiação, elas vêm passar um tempo nas fazendas para ter contato com a Natureza, ar puro e alimentação saudável. Assim entra em cena a jovem Galina (Anastasia Shevtsova) que se mostra arredia e insatisfeita por estar isolada e sem wi-fi. Os dias passam e ela vai se adaptando como pode. Nasce uma amizade entre ela e Pauline. Mas, neste meio tempo, chega à fazenda a equipe que irá instalar uma turbina eólica que levará a termo um projeto de autonomia sonhado por Alex. Porém, o líder da equipe, o engenheiro Samuel irá abalar as estruturas do casal e pôr em xeque os desejos de Pauline de viver a paz do campo abrindo mão de conhecer o mundo e ter novos desafios. Samuel já chega atropelando um dos porcos, sinalizando destruição e desequilíbrio.

Imagem cedida pela TZM Entretenimento 

O roteiro de Bettina e Antoine Jaccoud faz refletir sobre a instabilidade das relações. O filme tem uma fotografia muito bonita e trilha sonora delicada e compatível com as cenas campestres. A cena do nevoeiro é um ponto de destaque, carregada de simbolismos. É como se o nevoeiro escondesse os sentimentos e a rotina da lida diária ocultasse a realidade. O amor está na rotina estável ou no desconhecido? Um passo em falso e tudo pode acabar! A presença do ator português Nuno Lopes como Samuel traz essa possibilidade de rompimento com a zona de conforto. Ele é livre, viajado, fala várias línguas. O oposto de Alex.

A aparente liberdade de viver no campo, sem aparatos tecnológicos, sem depender da civilização acaba por se transformar em privação e isolamento e Pauline percebe este outro lado. Em paralelo às questões sentimentais, as mortes dos bezerros continuam a desequilibrar a rotina e irá se revelar uma importante questão na trama. A febre epidêmica vem para destruir um sonho. A cena final com a névoa se dissipando e revelando um imenso vazio é bela e profunda. Um recomeço é sempre assustador, porém desafiante e repleto de possibilidades.

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