30.4.20

O Doutor da Felicidade

O Doutor da Felicidade || Festival Varilux 2020
Crítica por Helen Nice


Esta comédia francesa de 2017 da diretora e roteirista Lorraine Lévy é baseada em uma peça teatral "Knock ou LeTriomphe de la Médicine" escrita por Jules Romains em 1923, que já teve uma outra versão anterior em 1951. Ela satiriza a hipocondria e a manipulação psicológica feita pela indústria de medicamentos, que nos induz a acreditar na doença para consumir a possível cura através de seus remédios, a ética médica envolvida e a ingenuidade das pessoas. Knock (Omar Sy) fazia de tudo para sobreviver na Marsell dos anos 1950 e se envolve em dívidas de jogo.

Tendo que fugir de seus credores ele embarca em um navio e finge ser médico aprendendo o vocabulário técnico e aplicando pequenos golpes em seus pacientes. Mas a partir daí descobre sua vocação e decide estudar medicina. O pequeno vilarejo de Saint Maurice vive uma vida tranquila e pacata. O médico local, Dr Parpalaid, homem honesto que não fez grande fortuna exercendo a profissão, chegou agora à aposentadoria. Quem virá substituí-lo? Dr Knock... 5 anos depois e já formado. Porém, seu único intento é fazer fortuna, exercendo a medicina de forma nada tradicional. Seus serviços, independentemente da doença, se baseiam em uma tabela relativa à situação financeira do paciente.

Seu primeiro contato é com o carteiro da cidade (Christian Hecq), figura cômica que renderá boas risadas. De comum acordo com a única farmácia da cidade, cujo dono Monsieur Mousquet (Michel Vuillermoz) só queria comprar um chapéu para sua esposa Madame Mousquet (Audrey Dana), o Dr Knock faz todos os habitantes acreditarem que sentem algum sintoma e tem algum tipo de doença imaginária ou que precisa prevenir seu aparecimento. Assim vai ganhando a confiança de todos e seu prestígio vai aumentando.


É bem divertida a maneira como o Dr Knock pega o ponto fraco de cada pessoa e a faz acreditar naquilo que ele diz. Doenças imaginárias que serão curadas por remédios placebos. Isso nos faz pensar como somos manipulados também. Bem propício para os dias atuais. Outros personagens são bem divertidos, como a viúva Pons (Hélène Vincent) rica e hipocondríaca, que só pensa em si própria. A doce Adele (Ana Girardot) que está realmente doente é mandada para se tratar em outro local.

Girardot está muito bem no papel e sua personagem irá ganhar os olhares sinceros do Dr e despertará seu lado humano e sensível. Madame Rémy, dona do único hotel da vila e tem suas manias, entra na jogada do médico também. Somente o pároco local, o padre Lupus (Alex Lutz) não acredita e tenta alertar a todos, sem sucesso. Aí está outro ponto bem atual também. A postura do padre que se ofende ao ver que seus fiéis estão trocando a fé e a frequência ao culto pela ciência e as consultas com o médico. Tudo ia em até que o passado volta à cena na figura do desafeto Lansky (Pascal Elbé) que chega por acaso à Saint Maurice.

Um humor tipicamente francês, leve e despretensioso, com uma fotografia encantadora que mostra as ruelas e praças do vilarejo bem como as montanhas verdejantes na cena romântica entre Omar Sy e Ana Girardot. Estes, aliás, carregam o ponto dramático da película também. E fica a pergunta... até que ponto a atitude do médico é condenável, sendo que as pessoas não foram forçadas a nada, se mostraram dispostas a serem ludibriadas e, ao final, se sentiram melhores de alguma forma. Uma boa indicação para estes dias de isolamento. Confira!

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