15.4.20

Milagre da Cela 7

Milagre da Cela 7 || Disponível na Netflix
Crítica por Helen Nice


É incrível como alguns filmes que em "outras eras" passariam despercebidos na grade de programação caem no gosto do grande público, e quem sabe, até da crítica, em tempos de Pandemia e isolamento social. Um assunto a ser estudado por psicólogos - será que o fato de estarmos mais sensíveis e emotivos nos leva a procurar na ficção algo com que liberar nossas emoções? O fato é que "Milagre da Cela 7" está nos levando às lágrimas, e não digo aquelas lagriminhas sorrateiras que nos surpreendem no escurinho do cinema, são verdadeiros rios e soluços que lavam a alma. E quando o filme acaba a gente se sente leve e descompromissado, pois tudo não passou de uma historinha.

Deixando de lado a qualidade do roteiro, que no caso é bem superficial, ou outros atributos técnicos, este dramalhão é um dos mais vistos da Netflix. O filme é um remake do original sul-coreano de 2013, que nem tinha uma pegada tão chorosa, e foi adaptado à realidade da Turquia, abordando o sistema judicial e a pena de morte por enforcamento. Dirigido por Mehmet Ada Oztekin, que vem de uma linha mais religiosa, o filme foi um grande sucesso na Turquia. As lembranças de uma noiva trazidas por um objeto na gaveta... assim começa nossa história. O longa pega pela emoção desde as primeiras cenas quando apresenta a pequena Ova (Nisa Sofiya Aksongur) sofrendo bullying na saída da escola ao encontrar seu pai Memo (Aras Bulut Iynemli) que tem déficit de desenvolvimento mental e segundo a doce avó (Celine Toyon Uysal) tem a "mesma idade" da filha. Que definição lindinha! Apenas o olhar carinhoso e a intervenção da professora Mine (Deniz Baysal) parecem demonstrar alguma empatia e entender o amor desse pai pela criança.


A avó cuida dos dois, pois a mãe de Ova morreu quando ela nasceu e isto não fica bem explicado - ela virou uma estrela. A relação familiar humilde de criadores de ovelhas (que tem nomes de pessoas) no árido povoado cria um clima bem sentimental. Uma mochilinha bem cara da personagem Heidi desencadeia uma série de fatos que culminam em um incidente e a acusação de Memo pela morte de uma coleguinha da escola, filha do Comandante do Exército que manipula os fatos para vingar a morte da filha. Memo é condenado à pena de morte por enforcamento. Não sem antes comer o pão que o diabo amassou e nos fazer chorar cântaros. Uma única testemunha poderia reverter a situação e evitar a morte de Memo, porém ele é eliminado brutalmente, o que nos causa grande revolta.

Na prisão temos momentos que beiram o realismo e outros bem forçados, porém que transmitem a mensagem contida no título do filme. O milagre, no caso, não seria algo surreal ou divino, mas a transformação que a convivência com aquela pessoa de natureza infantil, ingênua e sem maldade irá trazer à vida daqueles detentos. Devemos destacar a atuação excelente de Aras que consegue encarnar a personagem com realismo impressionante e respeito àqueles nesta situação. O carisma da pequena Nisa ganha nossos corações. O encontro entre pai e filha na prisão é de um encantamento único, fazendo- nos até relevar a forma como foi planejado esse encontro. O vilão da história, o Comandante (Yurder Okur) transmite no olhar o sentimento contraditório entre a frieza da vingança e a dor pela perda da filha de forma trágica. Os colegas da cela 07, rudes e sofridos, aos poucos se mostram humanos, com sentimentos e seguindo a norma de conduta que eles mesmos criam.

O final inesperado redime os encarcerados, o diretor da prisão e alguns policiais e nos dá a chamada "esperança" na raça humana. Bem propícia ao momento, aliás. Se deixarmos de lado nosso aguçado senso crítico e assistirmos "O Milagre da Cela 07" com um olhar mais contemplativo veremos algo mais além das falhas e clichês. O momento pede mais emoção e menos crítica! O mundo real já está duro o bastante. Assista e se emocione!

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