11.3.20

O Oficial e o Espião

O Oficial e o Espião || Estreia em 12 de março de 2020
Crítica por Luana Rosa


O mais novo trabalho de Roman Polanski conta a história real de Alfred Dreyfus (Louis Garrel), militar franco-judaico acusado injustamente de traição e preso por dez anos em uma ilha durante os anos finais do século XIX. Num tempo como o que vivemos, é importante relembrar que o antissemitismo já existia na Europa muito antes da Segunda Guerra Mundial e que um ódio generalizado leva décadas ascendendo gradualmente até atingir níveis como os presenciados nos campos de concentração. No entanto, o filme não é sobre isso.

A ascendência judia de Dreyfus parece ser apenas acessorial para contar uma narrativa sobre acusação, injustiça e a reputação de um homem. A etnia da vítima da história não é centro das discussões e aqui nos perguntamos se Polanski escolheu contar esse caso por também ser judeu, como se todo o resto já não nos dissesse que o cineasta se identifica com o personagem histórico. O protagonismo da obra fica nas mãos do professor e coronel Georges Picquart (Jean Dujardin), apresentado como um homem de nobreza e caráter ímpar, que ao assumir um posto hierárquico maior e perceber as contradições na condenação do ex-aluno, navega na contra-mão do alto escalão do exército para defender aquilo que é certo. Fica deveras claro que o personagem não age ideologicamente, mas por moral.


Assim, o filme se inicia com uma cena humilhante retratando a prisão de Drayfus e termina com sua absolvição, embora não nos termos que o próprio gostaria. Não obstante, é explícito que independente do parecer da justiça, o prestígio do personagem - que nunca foi muito alto devido ao preconceito - jamais voltará a ser o mesmo. Seja pela refusa da instituição militar de assumir seus erros (também temendo uma queda em sua reputação e autoridade), seja pela dificuldade de desmentir algo que uma vez foi pregado como verdade. A intenção do diretor em discutir as consequências de um “cancelamento” público é óbvia. E vai muito além do fator de culpa. Estranho é que um profissional com tantos exemplos de brilhantismo em seu portfólio, como Chinatown, O Bebê de Rosemary e Deus da Carnificina, seja premiado com o César de direção por um trabalho tão insosso.

O Oficial e o Espião é um filme impecável do ponto de vista técnico. A direção e fotografia não pecam e o design de produção é de encher os olhos. Contudo, ao mesmo tempo que os primeiros não cometem erros, também não entregam nada demais. E o roteiro deixa a desejar com sua falta de dinamismo e clareza na contagem de uma história que atravessa tantos anos. Além de antiética, a entrega deste prêmio foi, no mínimo, infundada.

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