4.3.20

Dois Irmãos - Uma Aventura Fantástica

Dois Irmãos - Uma Aventura Fantástica || Estreia em 5 de março de 2020
Crítica por Maurício Ferreira


Desde 1995, a Pixar vem tentando se tornar, com grande sucesso, o paradigma para filmes de animação no cinema americano. Responsável por Toy Story, o primeiro filme de animação totalmente 3D, o estúdio ganhou o coração de público e crítica não apenas com o apuro técnico pioneiro na popularização de uma nova mídia, como também em em suas narrativas bem construídas e focadas em engrandecimento pessoal de seus personagens. O sucesso inegável do início acabou esfriando nos últimos anos com filmes pouco lembrados, como é o caso da franquia Carros, e críticas de que o estúdio pudesse estar se repetindo.

A ideia de que a Pixar estivesse perdendo o brilho nesse últimos pode indicar uma percepção do público de que uma fórmula estivesse sendo usada nas histórias que assistimos. Quase todos os filmes de Toy Story acontecem numa jornada física em que os brinquedos precisam atravessar. Em Procurando Nemo, Marlin e Dory precisam atravessar todo Pacífico durante o filme. Já em Divertidamente, Alegria e Tristeza cruzam a mente de Riley para entenderem como ajudar a garota. Dois Irmãos vem com esse mesmo mote de uma missão que nossos protagonistas precisam enfrentar para amadurecerem.

No filme, somos apresentados a um mundo mágico que esqueceu a magia. Com toda a energia natural da magia, manusear esses encantamentos lendários sempre se mostrou muito perigoso, o que leva a todos os elfos, fadas, centauros e sereias a utilizarem muito mais a tecnologia, segura e democrática (pelo menos segundo o filme), do que a magia em seus corações. Ian (Tom Holland) é um elfo adolescente inseguro que está em uma fase difícil. Sente que precisa se abrir mais para amizades, enfrenta o drama da carteira de motorista; ou seja, está passando por mudanças significativas nessa fase da vida. Ele vive com sua mãe Laura (Julia Louis-Dreyfus) e seu irmão mais velho e jogador de RPG Barley (Chris Pratt).


Em seu aniversário de 16 anos, Ian recebe da mãe um presente que guardava a pedido do falecido pai dos irmãos elfos: um cajado e uma pedra mágica capazes de conjugar o pai para que vivesse com eles por mais um dia. A magia dá certo apenas pela metade (literalmente) e Ian inicia sua jornada para ver seu pai seguindo os conhecimentos que Barley aprendeu com seus jogos de RPG que retratavam a era em que a magia era comum no cotidiano de todos. Os dois irmãos seguem pela noite no furgão velho de Barley e atravessam vários percalços, como brigas com fadas e a falta de jeito inicial de Ian para a magia.

Tudo é bastante divertido enquanto eles passam por suas provações e as viradas no roteiro são bastante inteligentes. Elementos que passavam batidos ao longo do filme voltam de maneiras menos óbvias do que o usual e percebemos que se trata de uma história bem amarrada e com o propósito claro do início ao fim. Uma das ideias centrais do longa, além do sentimento fraternal que o título sugere, se dá com a relação daquele mundo com a magia. Os elementos sobrenaturais, mesmo num mundo com dragões de estimação, tornou-se tão obsoleta que é quase renegada. Barley é um dos poucos que tenta relembrar dos feitos históricos envolvidos com a magia e por isso é visto como garoto problema logo em sua primeira cena. Aliás, tudo que precisamos saber sobre as personagens e objetos importantes são introduzidos nos primeiros minutos de tela para serem desenvolvidos, mais um triunfo de um roteiro "redondo". Aqui, tudo está muito claro desde o início.


A magia é, então, uma manifestação cultural de povos ancestrais nesse mundo que vêm sofrendo um apagamento pelo mundo de vida atual, nesse caso, o American Way of Life. A cena da taverna da Mantícora (Octavia Spencer) retrata isso muito bem e de modo até debochado. A missão deles não se basta na tentativa de rever o pai que se foi, mas também está nessa lembrança de um passado que lhes pertence. Sinceramente, Dois Irmãos é um filme que tenta se reconectar a um passado para que saibamos de onde tirar nossas forças. Tanto na jornada de amadurecimento dos irmãos através da magia, algo que é de todos que ali habitam, quanto pela tentativa de rever o pai, num campo mais pessoal. Mas depois de quase 25 anos de filmes da Pixar, muitas vezes é fácil entender onde cada coisa levará e que tipo de reflexão ele poderá causar em quem assiste.

A leve crítica a um modo de vida desencantado pela correria do dia a dia sabe que não poderá mudar muita coisa é acaba assumindo que a ancestralidade cultural americana padrão, filha de culturas britânicas, irlandesas e germânicas, hoje em dia já é mais cultura pop que vem de um filtro de obras como Senhor dos Anéis e Dangeon & Dragons do que de um folclore que vinha de parte dos imigrantes que fundaram o país. No fim das contas, é um filme divertido e emocionante, mas que possivelmente não marcará os espectadores tanto quanto outros filmes do estúdio.

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