28.2.20

Por Lugares Incríveis || Jennifer Niven


Começando essa resenha no desabafo. Eu tinha um pouco de medo de ler Por lugares incríveis por tudo o que as pessoas comentam sobre ele, bem principalmente, e porque eu já tinha tentando ler ele uma vez e não deu muito certo. Para vocês terem uma noção, eu cheguei a trocar o livro e depois consegui outro exemplar. Dessa vez eu fui até o fim por causa do filme, que eu acompanhei o processo de produção desde o começo, lá quando a autora veio à Bienal de São Paulo e disse que o Nicholas Holt não seria o Finch. Adianto que a leitura de Por lugares incríveis não é fácil e não é para todo mundo. Isso não só pelos temas que aborda, como também pela angústia que a gente sente vendo as coisas dando errado e querer ajudar, querer entrar dentro do livro e abraçar o protagonista que foi um dos mais incríveis, perdoem a repetição do título, que conheci.

Logo no começo da estória somos apresentado a Theodore Finch e Violet Markey, que se aproximam devido a uma situação inusitada. Os dois estão no parapeito de um prédio prestes a se suicidarem. Só que Finch acaba deixando isso de lado e foca em ajudar Violet, que perdeu a irmã a um ano em um acidente de carro e ainda não conseguiu superar essa perda. Pelo comportamento de Finch, a "aberração", todos acham que Violet estava no parapeiro para salvá-lo. A partir daí uma amizade, forçada, entre os dois acontece. Finch escolhe Violet para ser sua parceira em um projeto da escola que consiste em conhecer Indiana, visitar os pontos turísticos para descobrir o que o estado tem de melhor. Nessas andanças os dois se apaixonam e a Violet descobre que o que as pessoas chamam de aberração no Finch é na verdade um transtorno mental grave.

Não podemos impedir que as pessoas morram. Não podemos impedi-las de ir embora. Não podemos impedir nós mesmos de ir embora.

Por lugares incríveis é um livro que fala sobre suicídio, morte, depressão e desejo. O suicídio é um gatilho constante na leitura porque permeia todo o enredo. Quando a gente entende a doença que o Finch tem, passa a entender, mais ou menos, como as coisas funcionam para ele. Só que a autora não entrega a doença logo de cara, eu fiquei em dúvida por um bom tempo sobre o que ele tinha, que não é só a depressão. O Finch fala de morte para se sentir vivo; nunca conheci um personagem que quisesse tanto viver como ele. Só que não é passar pela vida normalmente, ele quer ser amado, importar na vida dos outros, sentir que fez diferença e que valeu a pena. O desejo desse personagem transpassa as páginas e causa uma angústia enorme. Como não estão olhando para ele? Como não estão reparando que ele precisa de ajuda? Como não estão sentindo o desejo dele de ser importante?

Vale dizer que os pais do Finch são pessoas, na minha opinião, horrorosas. Sei que dizer isso não é justo, ainda mais se levarmos em consideração que a família está desestruturada, mas não entra na minha cabeça um pai ou mãe que não olha, de verdade, para o filho. Só que não são só os pais que são horríveis, quem está a volta do Finch também é; eles percebem tarde demais que algo está errado. Na primeira página temos noção que o Finch, e a Violet, não estão bem. Os dois estão no parapeito de um prédio prontos para pular. Só que as pessoas tratam o caso do Finch como "ok, é só Finch querendo se aparecer". Estão acostumados com as "esquisitices" dele, quando na verdade são crises de bipolaridade. Sendo bem sincera e não sei se foi a intenção da autora, eu acho que o que acontece com o Finch é um alerta para que o leitor repare nas pessoas. A gente tem mania de achar que o comportamento que consideramos "esquisito" de algumas pessoas não tem importância, mas às vezes isso é um sinal que elas estão mandando para qualquer pessoa que repare que elas não estão bem.

Não posso prometer que vou estar por perto, não porque eu não queira. É dificil explicar. Sou problemático. Estou despedaçado, e ninguém pode me consertar.


Quem também não está bem no livro é a Violet. O Finch prende tanto a nossa atenção que em muitos momentos esquecemos que a Violet precisa de ajuda e que essa ajuda vem da convivência dela com o Finch. Ele passa a impulsionar a vida dela para frente, coisa que não acontecia desde o acidente. Uma pena que ela não tenha conseguido fazer a mesma coisa por ele... O assunto suicídio no livro levanta um questionamento interessante não só sobre quem morre, como também quem tenta e quem fica. Uma passagem que me marcou muito foi uma personagem falando do estigma do suicida, que quando uma pessoa morre por causa de uma doença as pessoas levam flores ao túmulo, ficam tristes pela perda, mas quando é um suicida as pessoas não se importam. Elas não são lembradas em vida, nem em morte.

Como eu disse a leitura de Por lugares incríveis é angustiante e triste, mas necessária se você estiver bem mentalmente. Ele é muito bem escrito, cheio de cenas lindas dos lugares que eles visitam, com detalhes que te colocam na cena. O amor dos dois é juvenil e cheio de possibilidades, que infelizmente não se concretizam, mas que nem por isso é menos bonito e amadurecedor para a Violet. O Finch é um personagem apaixonante, com uma vivacidade desperdiçada pela falta de ajuda, pela falta de alguém que realmente olhasse para ele e percebesse que ele não estava bem. Muito inteligente, criativo, talentoso musicalmente e que pensava nos outros. Eu não chorei lendo, mas não foi uma leitura que consegui fazer de um vez; eu parava e respirava fundo para continuar. Quando terminei o meu desejo era de realmente poder entrar na estória, abraçar o Finch e dizer "eu estou vendo você".

E se a vida pudesse ser assim? Só as partes felizes, nada das horríveis, nem mesmo as minimamente desagradáveis. E se a gente pudesse simplesmente cortar o ruim e ficar só o bom?

*Eu preciso comentar uma coisa que me incomoda não só nesse livro, mas na maioria dos juvenis que falam sobre transtornos mentais, que é a falta do profissional de saúde para tratamento. Me incomoda que esses profissionais sejam deixados de lado nas narrativas para que o impacto seja maior, ou o desfecho mais triste. Quando o profissional da saúde aparece, seja na forma de conselheiro, psicólogo, psiquiatra, é desinteressado e não dá a devida atenção ao paciente. Eu fico bastante preocupada com os jovens lendo livros em que os médicos, que são aqueles capazes de controlar esses transtornos, capazes de fazer com que a vida desses jovens melhorem, sejam retratados de uma forma tão banal. Procurar ajuda é imprescindível e nada melhor que os profissionais de saúde para ajudar.

Por Lugares Incríveis
Jennifer Niven
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