2.1.20

O Farol

O Farol || Estreia em 2 de janeiro de 2020
Crítica: Luana Rosa


Em um dos filmes mais esperados de 2019, Robert Pattinson e Willem Dafoe dividem o protagonismo em uma tela com razão de aspecto 1:19:1, preto e branca e filmada em 35 milímetros. Apesar da estética - que também compreende uma trilha sonora dissonante e rasgada - remeter a um filme da década de 30 do século XX, trata-se do novo longa de Robert Eggers, o aclamado diretor de A Bruxa (2015) e um dos precursores do chamado Novo Terror. O terror sempre foi um gênero considerado “menor” por público e crítica. Por ter surgido como um cinema B marginal, com baixos orçamentos e temáticas pulp, ficou relegado ao lugar de “baixa cultura”. Talvez por isso haja uma necessidade da classe cinéfila de criar um novo termo e uma nova categoria quando surgem filmes de terror complexos, cheios de simbolismos e esteticamente ricos como A Bruxa, Corra, Hereditário, Nós, Babadook e Midsommar.

No caso de O Farol, seu lugar como filme cult não está garantido apenas por resgatar a linguagem de um cinema do início do século passado, evocando algo underground e nostálgico. Seu grande mérito é o de ressignificar isso com temas e técnicas atuais e, usando do antigo, criar uma plástica própria. Thomas Wake e Ephraim Winslow aportam juntos em uma pequena ilha deserta que compreende um farol. Os dois devem manusear o objeto e fazer sua manutenção durante quinze dias, depois dos quais serão resgatados por uma embarcação. Embora - a princípio - seja um trabalho simples, são duas semanas em que os personagens ficarão isolados de qualquer outro contato com a humanidade e vivendo em condições insalubres. Embora haja uma grande quantidade de cenas externas, ainda é um filme claustrofóbico pois entende-se que Thomas e Ephraim estão presos: na ilha e um ao outro.


O personagem de Dafoe é um marinheiro veterano sem pudores, porém extremamente temente a Deus e a todas as criaturas (naturais ou sobrenaturais) ligadas ao oceano. Seu comportamento provocativo em relação ao personagem de Pattinson, seu ajudante, faz com que a tensão aumente e a plateia fique apreensiva à iminência da violência física que pode partir de qualquer um dos dois a qualquer momento. Thomas Wake é experiente e hierarquicamente superior, embora velho, fraco e bêbado. E age com seu companheiro como se só tivesse consciência das primeiras características. Uma das atitudes abusivas de Thomas é a divisão arbitrária e injusta dos afazeres da ilha. Ephraim fica com todo o trabalho pesado, nojento e desgastante enquanto o faroleiro reserva para si apenas a tarefa de cuidar do farol durante a noite, fardo que desempenha com fervor absoluto, inclusive proibindo seu subalterno de acessar a luz do farol, no topo da construção.

Esta é uma obra que se vale dos simbolismos da mitologia grega, bretanha e cristã para discursar sobre loucura e prazer, coisas que inclusive parecem estar diretamente ligadas. Com uma pegada narrativa lovecraftiana (H.P. Lovecraft), O Farol manobra bem seu roteiro para que este não seja um filme raso em que o espectador sabe exatamente o momento em que o personagem enlouquece, ouvindo e vendo coisas que a direção deixa clara que não são reais. Não, este não é o caso. Aqui o público se perde junto com Ephraim. A (falta de) noção de tempo é compartilhada entre audiência e protagonista. E fica a sensação de que os irmãos Eggers também quiseram compartilhar com a audiência um pouco de sua perturbação.

Um comentário

  1. eu vi uma versão antiga desse filme e adorei a história, adoro esses dois atores e com certeza vou querer assistir

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

    ResponderExcluir

últimas resenhas e críticas

Acompanhe no Instagram

© Seja Cult. Design by FCD.