9.1.20

Adoráveis Mulheres

Adoráveis Mulheres || Estreia em 9 de janeiro de 2020
Crítica: Maurício Ferreira


Little Women é um clássico da literatura estadunidense escrito por Louisa May Alcott e publicado em dois volumes nos anos de 1868 e 1869. O sucesso de recepção, principalmente entre seu público-alvo (as mulheres que compartilham das dores e anseios das quatro irmãs protagonistas), fincou a obra como pilar da cultura americana e está no imaginário popular ao lado de As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, e Moby Dick, de Herman Melville.

Precursor do feminismo enquanto movimento organizado, Little Women traz à luz a história de quatro irmãs pobres nesse período de transição entre o fim da infância e os desafios que a vida adulta chega trazendo. Transição também no cenário político do país: a história se passa no fim da Guerra Civil Americana, sendo o pai das garotas um militar que passa alguns anos fora lutando pelo Exército da União, ou seja, nortistas liderados pelo presidente Lincoln pelo fim do modelo escravista americano.


Apesar das sete versões para o cinema e mais algumas para a televisão (inclusive em anime), Greta Gerwig chega com mais uma adaptação do livro de Alcott, a segunda em tempos de #MeToo – apesar da primeira, dirigida por Clare Niederpruem em 2018, ter passado em branco. Gerwig foi indicada ao Oscar de Direção por seu primeiro filme, Lady Bird, e repete seus temas no segundo longa como cineasta. Em Adoráveis Mulheres, Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen) são as filhas de Marmee March (Laura Dern), melhores amigas e artistas buscando seus lugares no mundo.

A escolha por uma história que gira em torno de quatro mulheres, em vez de uma como em Lady Bird, dá a Gerwig mais oportunidades de analisar o papel da feminilidade compulsiva, dos “corpos dóceis” que pulsam, de diferentes perspectivas. Por isso, considero importante frisar a veia artística das quatro irmãs. O filme é contado a partir de flashbacks que se introduzem entre as cenas para explicar o peso e os simbolismos dos acontecimentos presentes, o que deixa clara a ideia da diretora de estruturar toda a narrativa em torno das reações das personagens, de quem elas são. Desse modo, elas são mulheres que existem mais enquanto pulsão de suas próprias consciências e afetos do que como peças num jogo narrativo que as empurra ao bel- prazer dos acontecimentos e do roteiro.


Assim, Jo March anuncia logo no início ao editor de seus contos (e ao espectador) que contará a história de sua família num romance. Jo March se utiliza de tudo que vive e conhece como alimento para suas histórias, muitas vezes encenadas com o talento de Meg. Beth é uma natural ao piano e recebe o apoio do vizinho rico. Amy é uma pintora que, apesar de medíocre para um tempo de vanguardas, tem no retrato um modo de enxergar e processar o mundo em sua volta. Processar o mundo ao seu modo é tudo o que elas pedem, Jo sendo o modelo dessa inquietação e se faz presente em várias falas da personagem ao longo do filme. A mediocridade de Amy, apesar de soar como desculpa para o desenrolar romântico, diz muito sobre o tipo de cinema que Gerwig vem fazendo.

A personagem de Florence Pugh, pobre e fruto da educação de má qualidade oferecida às mulheres na época, tem o conhecimento das técnicas que conferem realismo à pintura, por exemplo, mas não entende os caminhos que as artes plásticas europeias estão tomando no momento em que vive. Depois de reconhecer que não se entraria para o hall dos gênios, Amy desabafa com Laurie (Timothée Chalamet) sobre como as mulheres nem mesmo têm acesso a esse hall. Entra, portanto, o questionamento dos lugares que elevamos (os homens, pra ser mais exato) ao papel de construtor da cultura de um povo. A quem é permitido ser medíocre e a quem a mediocridade serve? Que tipo de escolhe pode ser feita por uma mulher quando decide retratar o mundo à sua maneira?


Jo passa sua vida inteira correndo do casamento por saber que isso comprometeria seu direito de falar e ser ouvida socialmente. Ao tentar uma carreira de escritora em Nova York, ela precisa se adequar ao tipo de literatura que “vende”. Passa a compor histórias de monstros com peripécias mirabolantes a um preço de 20 dólares (costuma-se pagar de $25 a $30 por textos semelhantes, o editor avisa, mas pra ela será $20 mesmo). Friedrich Bhaer, professor estrangeiro e seu vizinho na pensão, critica abertamente os escritos publicados por ela. Quais espaços Jo pode frequentar? Precisa escrever textos que o editor considera comerciais o suficiente para publicação, retratando outras mulheres com os papeis que lhes são delegados pelos bons costumes (“Se tiver mulheres, faça com que se casem no final. Ou que morram.”).

E mesmo com essas barreiras que a engessam, precisa trazer um refinamento literário que os críticos esperariam de um homem culto a escrever na segunda metade do século XIX. É quando desiste e se vê livre para expor sua perspectiva, feminina e pobre, que Jo March dá a seu trabalho um frescor que empolga quem lê. É na própria potência que ela encontra sua força e seu diferencial. Sessenta anos depois da publicação de Little Women, Virginia Woolf é convidada a palestrar sobre uma tal de literatura feminina. Ao perceber que não sabia do que se tratava (literatura para mulheres, sobre mulheres, feita por mulheres, tudo isso junto?), Woolf escreve Um Teto todo Seu, ensaio sobre o processo de investigação sobre a relação da literatura com as mulheres e das mulheres com a literatura.


Para Woolf, uma mulher precisa dos recursos para sua sobrevivência, poder sobre suas escolhas financeiras, estabilidade para conseguir pensar em literatura como um homem da época conseguia fazer depois de um banquete noturno em Oxford, por exemplo. Jo March, Louisa May Albott e Greta Gerwig estão em busca disso também e a diretora nos apresenta a esse dilema com o problema formal muito presente no cinema contemporâneo: o acesso das massas e poder de difusão contra um “purismo” estético em busca de uma poética própria. Durante a crítica de Friedrich em que Jo entende a encruzilhada literária que está metida, a jovem escritora se compara a Shakespeare. O Bardo de Avon escrevia para o povo, segundo ela, e foi isso que o alçou ao lugar que ocupa. Mas no fundo, Jo sabe que vender seus contos de segunda categoria é o que a mantém em Nova York. Greta também sabe disso, e talvez acredite nas mesmas coisas que Jo March.

A urgência do tema faz Greta trabalhar em terrenos afetivos e diretos. Foi assim com Lady Bird e é assim com Adoráveis Mulheres. A personalidade de Jo faz com que seja a única que segue as pretensões artísticas a ponto de a tornarem numa profissão remunerada. É nesse aspecto que fica evidente a faceta liberal de Adoráveis Mulheres. Aliás, mais do que liberal, prática. Se Jo se desespera com o casamento de Meg, o filme deixa claro que o que importa não é a recusa de algumas estruturas de forma individual, mas o poder de escolha. Afinal, ninguém é mártir nem heroína por recusar um casamento.


O filme, através de suas protagonistas, cede; cada uma das irmãs tenta se conciliar com o mundo. Nesse sentido, Adoráveis Mulheres não chega a pontos polêmicos dos debates sociais. Em uma cena na escola, Amy explica que seu pai está na guerra ao lado do presidente Lincoln. Suas coleguinhas aparecem com um papinho de que até mesmo elas, nortistas, se beneficiavam da escravidão. Amy apenas responde que é responsabilidade moral lutar contra isso. Gerwig trata seu filme da mesma maneira ao abordar e explicitar o papel da mulher nos EUA de ontem e de hoje. Olhando de modo geral assim, abrir espaço para que as mulheres sejam quem elas podem ser é realmente o mínimo. Um caminho de gritar obviedades por necessidade e mesmo assim ter que fazer algumas concessões, uma negociação constante que o filme faz questão de levar às raias da metalinguagem nas cenas finais entre Jo e seu editor.

Adoráveis Mulheres é um filme bastante seguro de si e que já apresenta uma assinatura de Greta Gerwig como diretora. Aprofunda seus temas, amadurece seus personagens e sua direção. Além de trazer o humor e a leveza que abraça quem assiste, assim como no primeiro filme solo da diretora, mas agora sem a birra adolescente que podia irritar quem já passou da adolescência há alguns anos. Gerwig se firma como autora sólida, talvez menos pela ousadia do que pela firmeza de sua mão. O debate feminista, que já está no mainstream há uns anos, é levantado com segurança. Discordar já é outra etapa (e não sou eu quem fará). Para além do racionalismo e didatismo de seu discurso, o amor em volta de tudo é sincero e tocante também. Como dito acima, Gerwig não se interessa tanto pelo peso dos acontecimentos e, por isso, mesmo antevendo muitas das cenas, assistir e esperar acontecer é reconfortante. Uma família que se ama e convive organicamente é possível no cinema e devemos agradecer por isso.


Imagens do post: Divulgação

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