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Coringa

3.10.19

Coringa || Estreia em 3 de outubro de 2019
Crítica: Karla Nayra

Um exercício de alteridade

A figura do anti-herói parece necessitar do momento correto na história para encontrar lugar na indústria cultural. Foi o que ocorreu no cinema hollywoodiano que se transformou no final da década de 1960 e é o que parece acontecer nos dias de hoje. O diretor Todd Phillips nos apresenta, através do olhar de Arthur Fleck (Coringa), mais do que um competente estudo de personagem elaborado por Joaquin Phoenix, mas um estudo de sociedade. Coringa mostra claramente como determinadas estruturas sociais se reproduzem. Enxergar através do olhar daquele que seria o “vilão” é um exercício de alteridade. Essa é a proposta de Phillips que, ao pegar na mão do espectador, nos conduz à percepção da desconstrução do vilão que conhecemos. Isso incomoda.

Nesse processo, o diretor apresenta um arquétipo do marginalizado e do invisível, o que nos deixa mais próximos do protagonista e torna nossa visão em relação ao Coringa mais humana. Compreendemos a sua construção e o que fez dele um vilão. Mas atenção, compreender não é concordar. Tanto o diretor quanto Phoenix trabalham cuidadosamente para que a obra não sirva como uma justificativa para o mal, mas uma explicação. É diferente. Embora funcione como ambientação, o roteiro aponta paradigmas sociais com uma precisão cirúrgica. A violência urbana, os discursos hipócritas e falaciosos dos políticos, a alienação de todos (ricos e pobres) e a necessidade da população de encontrar um salvador.


O roteiro ressalta a incompetência das elites em resolver questões sociais de maneira prática e objetiva e mostra sua grande habilidade em manter as aparências. No núcleo familiar de Coringa, encontramos na figura da mãe uma explicação sobre como se constrói um vilão por meio do histórico da família e dos abusos que marcaram sua realidade. Este é um aspecto fortíssimo ao longo de todo o filme que nos faz perceber como se constroem os vilões da vida real. Que escolhas essas pessoas têm? A quais tipos de violências estão expostas? A obra mostra a alienação das elites e como se apropriam do discurso midiático. A questão central do filme é: o que é engraçado, afinal? Quem decide sobre o que é risível ou não? Quem dita as regras do jogo? Há uma reação a isso e o Coringa é a chave.

Trata-se de um personagem contracultural que é mostrado como um artista perturbado sob uma trilha sonora certeira. Um espelho de nossas próprias contradições Coringa é um filme sobre as contradições do ser humano. Há um riso triste e desesperançoso que escapa ao protagonista. Ironicamente, no momento em que o sorriso mas é expressado é o momento de maior dor e sofrimento do personagem. Trata-se de um palhaço que ao invés de alegrar produz tragédias. O próprio Coringa parece ser uma negação da realidade. Arthur Fleck precisa se esconder atrás de uma maquiagem e de um codinome para conseguir a expressão de quem ele realmente é. Ou será que essa seria mais uma forma de se esconder de si mesmo e dos outros? Coringa está negando ou afirmando quem é ou deseja ser?

Então reflito, o que necessitamos fazer para ser quem somos? Será que desejamos mostrar nossa verdadeira face? São muitas perguntas que ficam após essa brilhante obra de arte. Por ora, o máximo que consigo fazer é pensar sobre elas. Coringa é sobretudo um artista controverso. Tanto a direção quanto o roteiro nos transportam para esse lugar de angústias, inquietações e brinca com a nossa percepção de realidade nos colocando, literalmente, no lugar do protagonista, propondo um exercício genuíno de alteridade.

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