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A Vida Invisível

29.10.19

A Vida Invisível || Estreia em 21 de novembro de 2019
Crítica: Helen Nice


Vencedor de Melhor Filme da Mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes e nosso representante na disputa pelo Oscar 2020 de Melhor Filme Internacional, A Vida Invisível é sobre a história de duas mulheres, duas irmãs com uma forte ligação de amizade, tentando lutar contra as forças que insistem em frustrá-las. Mulheres invisíveis em uma sociedade paternalista e conservadora. Anos 1940/1950. A mulher pertencia ao pai, ao qual devia obediência. Com o casamento, geralmente aprovado pelo próprio pai, passava a ser propriedade do marido. Sua única função era cuidar da casa, servir ao homem e procriar.

No Rio de Janeiro, Guida Gusmão (Júlia Stockler) foge da casa dos pais para viver um grande amor romântico, seguindo com o marinheiro Yorgus (Nikolas Antunes) para a Grécia. Mas nem tudo são flores... Enquanto isso, sua irmã Eurídice (Carol Duarte), que sonhava em ser uma pianista famosa e estudar em um conservatório em Viena, abre mão de seus sonhos e segue seu destino casando-se com o funcionário público Antenor (Gregório Duvivier). Sai dos domínios do pai, Sr Manuel (Antonio Fonseca), um português ignorante e autoritário e cai nas garras de outro dominador que a trata como um objeto de prazer. Nenhuma das duas encontra a felicidade em suas vidas. Essa foi a realidade de nossas avós, mães e da maioria das mulheres nascidas no começo do século XX - serem boas esposas. Invisíveis em suas angústias e sentimentos, coadjuvantes no roteiro da própria vida.


O livro de Martha Batalha foi brilhantemente roteirizado por Murilo Hauser e Ines Bortagaray e dirigido por Karin Ainouz. É um drama de amor, o amor entre as duas irmãs separadas pelo destino e pelas mentiras do pai contrariado em seu papel de macho dominante. A mãe submissa foi conivente na mentira. Porém, neste folhetim à moda antiga, são as mulheres que se destacam com atuações emocionantes. Guida, sua amiga e segunda família, a ex prostituta Filomena (Barbara Santos) que sobrevive cuidando de crianças. A vizinha e confidente Zélia (Maria Manoella), que dá apoio à Eurídice. E a própria mãe D. Ana (Flávia Gusmão), que segue à risca seu papel submisso e sofre com uma doença incurável.

Guida por tentar escolher seus caminhos passa a ser a mulher impura, a mãe solteira que sobrevive como pode em um mundo marginalizado. Eurídice é a santa "bem" casada, que sofre com o estupro matrimonial, mas tem casa bem montada e vida exemplar. Na época não era permitido se dizer insatisfeita ou deprimida. A obra caminha no tempo brilhantemente mostrando as perdas que cada irmã foi tendo vida afora, sempre tão perto e tão separadas. Já nos dias atuais, após uma vida inteira imaginando como a outra era feliz, vemos a figura de Eurídice aos 80 anos (Fernanda Montenegro), melancólica e optando por resignar-se ao descobrir toda a verdade. Sua força está justamente em não se revoltar com as distâncias que a vida lhe impôs. Fernanda Montenegro dá um show de atuação e entrega à personagem uma carga dramática excepcional.

Um melodrama como há muito não se via no cinema nacional. Forte, pungente, tocante e emocionante. Uma história que te faz sair do cinema refletindo no quanto sua mãe e avós viveram como Guidas e Eurídices, e em como sua vida atual sofreu mudanças a partir das experiências delas. E até que ponto ainda existem Guidas e Eurídices enfrentando um patriarcado disfarçado nos dias atuais!

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