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Rainhas do Crime

7.8.19

Rainhas do Crime || Estreia em 8 de agosto de 2019
Crítica: Karla Nayra


Ambientado no final da década de 1970, na Nova Iorque barra pesada da época, Rainhas do Crime trata com carinho a contextualização histórica. A ambientação abarca o momento político estadunidense, a falta de segurança pública e vai até os imigrantes com forte presença na cidade: judeus; irlandeses; e italianos. A região era comandada por facções criminosas que negociavam entre si o domínio dos bairros até que três mulheres entram para essa disputa. É nesse contexto que a diretora Andrea Berloff decide nos contar uma história dramática sob uma forte perspectiva feminista. O feminismo está na moda e ocupa cada vez mais espaço entre as grandes produções hollywoodianas. Isso é bastante positivo e fica melhor ainda quando o tema é abordado por uma mulher. Porém, Berloff abusa das exposições sem fazer valer aquela velha máxima do cinema “mostre mais e fale menos”.

Colocar discursos exagerados nas bocas das personagens me parece uma saída fácil para transmitir rapidamente uma ideia essencial. Não precisa disso. Há quem diga que trilhas sonoras que trazem letras sobre aquilo que está acontecendo em cena empobrece o filme. Tendo a concordar, mas em Rainhas do Crime isso surpreende e ocorre logo na primeira cena. Admito que tenho um crush com o soul music e com esse período histórico nos Estados Unidos e talvez por isso a primeira cena do filme tenha capturado completamente minha atenção. A cena traz a música It's a Man's Man's Man's World escrita por Betty Jean e Newsome James Brown, na interpretação de Etta James. Musicão! A canção teve uma montagem competente junto com a cena inicial do filme. Foi como uma dança.


Na estrutura narrativa a diretora fez uma conexão orgânica entre a temática da desigualdade social e o papel da mulher na sociedade. Há um diálogo marcante entre a personagem de Melissa McCarthy e seu pai no qual a mensagem sobre o modelo de sociedade em que vivemos é o maior responsável por definir quem somos. O filme mostra as dificuldades que uma mulher tinha (ou tem?!) para conseguir um emprego pelo simples fato de ser mulher. Além disso, discute o grave problema da reprodução do machismo entre as mulheres. O filme faz uma representação caricata do que é ser homem, isso incomoda em uma obra cuja temática é a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Por outro lado, temos momentos de respostas lacradoras para machões abusados e isso a gente ama ver!

Vale à pena destacar a sensibilidade da diretora em trazer uma mulher gorda para ser uma protagonista proeminente no filme. Normalmente, personagens gordos são tratados de forma caricata e jocosa. Melissa McCarthy está incrível em um papel que poderia ser facilmente oferecido a uma atriz magra, dentro dos padrões de beleza hollywoodiano. O filme não se limita a um tipo de mulher e traz na personagem de Tiffany Haddish os desafios de ser negra em um lugar que além de machista é racista. A personagem de Elisabeth Moss (de The Handmaid's Tale) é a que sofre agressão física e transforma suas frustrações em combustível para superar seus traumas.

Fiquei incomodada com a forma descartável como o filme trata alguns personagens para o seu desenvolvimento. Há muita gente morrendo com ou sem motivos. Acho que isso desumaniza a figura do outro, mas é aceitável quando estamos falando de tempos violentos. De uma forma geral, Rainhas do Crime é uma boa opção de entretenimento e compreensão acerca das várias facetas do feminismo. A obra traz uma forte mensagem sobre o poder que as mulheres acumulam quando se unem, mas mostra também os perigos da falta de união e de sororidade entre elas.

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