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Kindred - Laços de Sangue || Octavia Butler

5.8.19


Kindred foi o meu primeiro contato com a autora Octavia Butler e com a editora Morro Branco, que não é uma editora tão antiga assim e tem lançado umas obras bem diferentes. Eu fui influenciada por todas as resenhas que li/vi nos blogs e instagrans. Falavam tão bem da obra que fiquei curiosa e comprei a edição especial, com capa dura e conteúdo extra. O livro conta a estória de Dana, uma mulher negra que vive na década de 1960 e em um dia comum na sua vida, arrumando a mudança de casa, passa mal e acorda no século XIX, 1815. O que é importante saber sobre as datas, o livro se passa nos Estados Unidos e a década de 1960 é marcada pelos movimentos de direitos civis para os negros. Então a vida de Dana nessa época já era complicada, ainda mais que ela tem um marido branco que as famílias e amigos não aceitam muito bem. Quando ela vai para 1815, Dana vive no período escravista pré-Guerra Civil americana, ou seja, uma negra na escravidão.

Não vou explicar muito sobre as viagens no tempo para não dar spoiler, mas elas acontecem por um motivo muito especifico e sempre envolvendo um personagem chamado Rufus, que vive no século XIX. Sempre que ele precisa a Dana volta no tempo. Só que na época dele se passam anos e na época dela, 1960, se passa um tempo pequeno de tempo, coisa de segundos, horas ou meses. Por exemplo, ela fica meses no século XIX e no tempo dela se passam horas. Quem está no século XIX envelhece e quem está no século XX, não. O livro é narrado em primeira pessoa pela Dana e ela é um personagem bastante racional. Ela tem alguns momentos passionais, mas pensa tudo mais com a razão. Tenta entender como as coisas que ela apenas leu nos livros sobre escravidão funcionam, já que ela está vivendo isso na pele.

Era aquele amor destrutivo e cego dele. Ele me amava. (...) me queria por perto, alguém com quem conversar, alguém que o ouvisse e se importasse com o que ele dissesse, que se importasse com ele. E eu me importava.


O livro vai acompanhar o crescimento de Rufus junto com as viagens no tempo de Dana. A primeira viagem ele é apenas um garotinho, eles se conhecem e depois ela volta para o seu tempo. À medida que o Rufus cresce e a Dana passa mais tempo no século XIX, mais ela vive a escravidão. E o que é difícil para a gente entender é como o Rufus muda de atitude com ela, uma mulher que vem acompanhando ele nessa jornada. Por mais ajuda que ela dê, ele a vê como um objeto, valioso pelo conhecimento que ela tem, mas ainda um objeto. Enquanto isso, a Dana vai tentando ajudar os outros escravos como pode, ensinando-os a ler e escrever, tratando ferimentos e auxiliando nas fugas. Entre alguns começa uma amizade, entre outros intriga, já que Dana, embora negra, não tem o mesmo tratamento que os outros. Pelo menos por um tempo.

Sempre que um livro traz o outro lado de uma história conhecida é difícil de ler, com Kindred é exatamente o que acontece. Pelos olhos de Dana vamos sentir as chibatadas, a dor, humilhação, vergonha, a vontade de fugir mesmo que isso signifique a morte para ser livre. Todas essas partes são horríveis de ler, mas as cenas dos filhos me tocaram especialmente. Os donos dos escravos vendiam os filhos que eles tinham entre eles como punição por tentar fugir ou porque uma das patroas não gostava da comida que uma escrava fazia. Duas das escravas que convivem com a Dana passam por isso e a garganta chega fica entalada lendo. Como fomos, e ainda somo capazes, de fazer isso com outro ser humano nunca vai entrar na minha cabeça. Achar que temos o direito de tirar a liberdade de alguém apenas porque ela é tem uma cor diferente da nossa, ou é diferente de nós.

Acaba que quando o livro termina é isso que ficou rondando a minha mente por alguns dias. A normalidade assombrosa para os donos de escravos venderem e maltratarem pessoas. Impacta em muitos momentos, faz refletir, me deixou bem mal depois de ler e por ter me proporcionado tantas sensações é uma leitura favorita e mais que indicada. Não é um livro que se prende a fazer sentido na questão da viagem no tempo, mas em passar uma mensagem, em te fazer pensar na escravidão. O conteúdo extra que o livro traz é uma nota de alguém da Morro Branco, uma carta da Octavia, um guia de discussão e uma bibliografia da autora. Estou encantada com o livro e atrás dos outros dela que a editora lançou. Era uma autora que estava fazendo falta no Brasil e que depois de 40 anos, finalmente chegou.

Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitarem a escravidão.

Kindred: Laços de Sangue
Octavia E. Butler
Editora Morro Branco: Facebook/Instagram

Onde comprar (link comissionado):
Amazon

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