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Deslembro

13.7.19

Deslembro || Estreou em 20 de junho de 2019
Crítica: Karla Nayra


Uma das coisas mais interessantes do filme é justamente o nome da obra: Deslembro. Escrito e dirigido por Flávia Castro, a autora brinca com o significado da palavra e nos leva questionar se isso seria sinônimo de esquecer ou antônimo de lembrar, afinal o que é deslembro? Veremos adiante. O filme aposta em uma narrativa na qual a melancolia e a nostalgia predominam. A linguagem estética adotada pelo design de produção dialoga de forma harmônica com a proposta da autora, que remonta sua própria história cujo pano de fundo e tema é a ditadura militar que aconteceu no Brasil no período de 1964 a 1985. A diretora teve seu pai morto nos porões do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e, assim como a protagonista Joana (Jeanne Boudier), não sabe como essa morte aconteceu.

Para representar isso, a obra acompanha a trajetória da adolescente Joana que vive na França com sua família. Com a criação da Lei da Anistia, promulgada por João Batista Figueiredo em 1979, sua mãe (Sara Antunes) decide regressar com a família ao Brasil. Joana já está adaptada e se opõe a ideia de voltar, porém, mesmo contra sua vontade, acaba retornando para o seu país de origem e tendo de se adaptar a uma nova realidade. Deslembro é uma obra sobre um tema que já foi amplamente discutido em diversos filmes, séries, obras literárias, etc. Todavia, Flávia Castro conseguiu imprimir uma abordagem inovadora e foge do óbvio em vários momentos. O núcleo familiar é um bom exemplo de como isso ocorre. O padrasto de Joana é chileno e tem um filho com a ex-mulher falecida. O irmão caçula é filho da mãe de Joana com o padrasto chileno.

Nesse caldeirão, temos uma mistura de três idiomas que em alguns momentos estão presentes no mesmo diálogo. Vale ressaltar que toda vez que um personagem começa a falar sobre questões complexas do seu eu, ele ou ela adota a sua língua mãe. No caso de Joana essa língua era o francês. Um destaque especial para Eliane Giardini que interpreta a avó de Joana. Temos nessa personagem outra fuga do óbvio. Avó não é a representação daquilo que se espera de uma avó tradicional. Ademais, ela faz um elo entre Joana e o pai desaparecido além de funcionar como um excelente alívio cômico.


UMA ABORDAGEM FEMININA

Temas como a sexualidade feminina costumam ter uma abordagem polêmica nas telas. Acontece que temos uma mulher por trás das câmeras e precisamos enaltecer a sensibilidade e delicadeza com a qual ela trabalha a temática no filme. Quando percebi que o filme ia começar a abordar isso meu coração ficou um pouco aflito, confesso. Afinal, a obra estava indo bem com uma estética linda, a narrativa ritmada, a fotografia cuidadosamente trabalhada... não precisava disso. Mas Flávia Castro surpreende e não banaliza e tampouco objetifica a figura feminina (nós, feministas, agradecemos!). O que ela faz é conectar esse ponto com todos os outros da obra. Acredito que por ser mulher e, talvez, por sentir o mesmo incômodo que nós mulheres sentimos ela tenha caprichado no olhar. Arrasou!

DESLEMBRO?

Essa é uma palavra que despertou muita curiosidade do público. O que seria deslembro, afinal? Antônimo de lembrar ou sinônimo de esquecer? Nenhum dos dois. A palavra deslembro é sobre não esquecer de algo que está na memória, mas também não trazer aquilo a tona sempre. É uma memória que está aí, mas não precisa ser lembrada. Nem esquecida.

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