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A Sombra do Pai

24.4.19

A Sombra do Pai || Estreia em 2 de maio de 2019
Crítica: Helen Nice


Em A Sombra do Pai somos apresentados a uma família de baixa renda em um bairro proletário de São Paulo. Há uma total inversão de papéis nesta família disfuncional. Cristina (Luciana Paes) é a tia que mora temporariamente com o irmão viúvo Jorge (Júlio Machado) para ajudar na criação da menina Dalva (Nina Medeiros). O sonho de Cristina é casar e ter sua própria casa e família, porém o namorado Elton (Rafael Raposo) ata e desata a relação, não assumindo a responsabilidade. Para solucionar o impasse, Cristina se fia a crendices e simpatias de magia branca para tentar "prender" seu homem. E passa essas crendices para a pequena Dalva, que aos 9 anos tem uma imaginação bastante fértil, e ao ser exposta a esse universo mágico e misterioso vê seu gosto pelo terror incentivado.

O fato de gostar de assistir filmes de terror como Cemitério Maldito (1989) e A Noite dos Mortos-vivos (1968) ampliam seu imaginário. A criança está passando por um momento delicado, psicologicamente falando. A falta da mãe e o pai ausente deixam brechas em seu imaginário para que ela brinque com o irreal e imagine possuir um dom de trazer pessoas de volta à vida. Em contrapartida está o pai, trabalhador da construção civil, enfrentando uma rotina difícil que debilita sua saúde física e emocional. Exumar o corpo da esposa morta não é um momento fácil e somente alguém perdido traria para casa cabelo, dentes e uma correntinha do corpo e daria à filha, como se assim a presença da esposa-mãe pudesse ser preservada. Para completar a tragédia, seu colega de trabalho ao ser demitido da construção não aguenta o peso de contar à família e se suicida na obra. O choro do pedreiro Jorge revela toda sua dor contida.


Neste universo de pessoas quebradas enfrentando seus lutos particulares apenas o sobrenatural, na forma de crendices e superstições, pode trazer algum alento. Enterrar uma boneca, fazer um vudu e acender velas, fazer pacto de sangue, plantar dentes da mãe e fazer um altar com seu cabelo talvez traga de volta à vida "quem me amou e se foi", pensa a pequena e taciturna Dalva. Seu mundo interior é tão cinza quanto a fotografia do filme e nem mesmo a festinha de aniversário e o bolo simples trazem alguma cor à vida de "Dauva". O pai sequer se lembrou de comprar um presentinho.

A diretora Gabriela Amaral Almeida é bastante feliz ao abordar o imaginário sobrenatural brasileiro tão rico em crenças e superstições, principalmente nas camadas menos favorecidas. As questões sociais do desemprego e o quanto isso afeta a autoestima causando doenças físicas e mentais e o quanto o luto mal trabalhado afeta a estrutura familiar. A falta da figura materna obriga Dalva a crescer abruptamente, a ser responsável pela casa e seu pai, a ficar abandonada sem carinho e aconchego. Creio que este seja o terror maior no filme. O terror psicológico e a fuga para o imaginário e sobrenatural. Seria Dalva realmente uma dotada ou tudo não passou de imaginação?

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