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O ódio que você semeia (filme)

17.2.19

Começo dizendo nessa crítica que os comentários postados aqui se referem apenas ao filme. Embora desejasse muito ter lido o livro antes de assistir, a curiosidade falou mais alto e pulei a ordem. O ódio que você semeia é a adaptação do livro, de mesmo nome, da autora Angie Thomas e lançado pela Galera Record. Ele estreou em outubro do ano passado, mas passou em circuito reduzido e muita gente não assistiu e pior, nem ficou sabendo. Especularam na época que a própria Fox boicotou o filme por causa da pouca divulgação. O que é uma pena, visto que é um filme muito bom e cheio de reflexões necessárias para os tempos extremos que estamos vivendo.

Starr Carter (Amandla Stenberg) é uma jovem que vive duas vidas. Em casa é a adolescente negra, que mora numa favela e vivencia a violência no seu dia a dia. Na escola é a única negra na instituição, mas uma negra que tenta se esconder vivendo como os garotos brancos. Parece complicado e realmente é. Para ter uma boa educação, a mãe colocou a Starr em uma escola particular e ela precisa viver nos moldes dos jovens ricos que estudam lá. Mas as duas vidas de Starr vão se encontrar, porque ela vai ser a única testemunha do assassinado de um amigo negro por um policial branco. Ele confunde uma escova de cabelo com uma arma e mata o garoto. Será colocado para Starr duas opções: se esconder e continuar tendo duas vidas, ou uni-las e mostrar a verdadeira.


Eu assisti esse filme com um nó na garganta desde a primeira cena, que é de uma tristeza sem fim. Starr e os irmãos, ainda pequenos, aprendem a como reagir diante da policia. Sempre ficar com as mãos visíveis e não fazer movimentos bruscos são alguns ensinamentos. O filme tem diálogos e cenas fortes envolvendo não só o racismo e a violência, mas como o assassinato de pessoas negras por policias brancos influencia as relações entre eles. É visto como uma guerra entre negros e brancos, nós e eles. Isso acaba se refletindo nas crianças, que já crescem com o separatismo sendo ensinado pelos pais. Num primeiro momento parece que isso é ensinado apenas para proteger eles, mas depois fica claro que não é bem assim.

A Starr é uma personagem cativante, que desperta não só a tristeza por viver num mundo onde você precisa esconder quem é, mas que também nos inspira. Durante boa parte do filme a gente acha que ela vai se omitir, que não vai depor e explicar o que houve na noite do assassinato. A mãe é muito protetora e não quer essa exposição, que os traficantes que comandam a área que eles moram descubra que ela está envolvida. O pai já é diferente, instiga a Starr a ser uma pessoa justa e que enfrenta as adversidades, tenha coragem de se fazer ouvir mesmo que seja perigoso. Moldar uma criança em extremos não é o ideal, a Starr encontra a sua voz quando necessário e se aproximou do que eu acho que seja o melhor para a mulher que ela deseja ser. Todos nós.


Nossa, eu adorei esse filme. Ele é cheio de reflexões importantes, referências à cultura negra e temas atuais. Gera debates necessários e nos coloca do outro lado, que é um lado que muitas vezes a gente não pensa muito e alguns nem se importa. A Starr tem um namorado branco, e nesse contexto isso cria cenas dolorosas e engraçadas. Os diálogos são inteligentes e inspiradores, a trilha sonora é maravilhosa e bastante assertiva. O elenco principal é todo negro e sim, é importante falar sobre isso porque poderiam simplesmente ter mudado. De tantos exemplos, um sempre me chama a atenção. Para todos os garotos que já amei foi parar na Netflix porque a Jenny Han não permitiu que seus personagens asiáticos fossem americanizados e ninguém quis fazer o projeto.

Minha única ressalva sobre o filme é o final. O filme vem num crescente, as situações ficam insustentáveis e a gente percebe que vai explodir. Explode e depois fica tudo bem. Na vida real não é bem assim, a luta continua e as coisas na maioria das vezes não terminam bem. Para um filme que propõe uma mudança, isso ficou aquém do esperado. Mas eu entendo que a mensagem a se passar tinha que ser essa. Se você luta, consegue. Se levanta a sua voz, é ouvido. Mesmo que na vida real não seja assim é um alento pensar que um dia pode ser. Acredito que ainda não tenha saído em DvD, mas quem tiver a oportunidade de assistir não perca tempo.

Um comentário:

  1. Eu estou esperando o momento 'ideal' para começar a leitura. Mas na sua resenha já tive uma noção do que irei encontrar. E de verdade, as vezes dá essa sensação de que 'nadamos tanto e morremos na praia', quando acreditamos na progressão, regredimos mais e assim por diante - é frustrante.

    Adorei a resenha <3
    www.blogdodeivy.com

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