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Lembro mais dos Corvos

6.2.19

Green Book: O Guia || Estreia em 23 de fevereiro de 2019
Crítica: Raísa Maris Reina


Premiado na 21º Mostra de Tiradentes (primeira vez que o Prêmio Helena Ignez da Mostra vai para uma mulher trans), Lembro Mais dos Corvos conta a história de Julia Katherine, uma mulher que em meio à uma crise de insônia conta histórias de sua vida. Começando já com um assunto no mínimo delicado, a primeiro história contada é sobre o relacionamento abusivo entre Julia e seu tio-avô; ela tinha 8 anos e ele 55. Mas Julia não busca nenhuma cura pela fala; ela deixa claro que já processou e pensou muito sobre esse período de sua vida. O que testemunhamos são 80 minutos dela fazendo um exercício de rememoração através de suas narrativas.

Em meio à taças de vinho, cigarros e pausas, Lembro Mais dos Corvos revela-se não só como um estudo de personagem mas também um estudo sobre a intimidade e a arte de contar histórias. O desafio de ter apenas uma pessoa em cena contando tudo e sem nenhuma outra interjeição que não seja a voz do diretor, que faz algumas perguntas pontuais, dá a impressão de que nós estamos no mesmo quarto que Julia Katharine e ouvindo ela contar sobre sua vida.

As histórias vão desde a mais casual conversa sobre cinema e premiações, até relatos de relacionamentos abusivos e violências sofridas por uma mulher que se recusa a ser uma vítima. Assuntos dolorosos não são evitados e, ao mesmo tempo, também não são usados para explorar a vivência de Julia Katherine como mulher trans; os relatos de violências sofridas desde a infância até a vida adulta em uma viagem ao Japão não surgem como uma forma de gerar pena no público; isso seria impossível diante da grandeza dessa personagem-real que vemos em cena.


{spoiler} Com o barulho da cidade de São Paulo iniciando mais um dia, o documentário termina com Julia tomando as rédeas da direção e focando a câmera na janela para poder dirigir o sol. Parece mais do que adequado que alguém com a presença de cena de Julia Katherine, se proponha a dirigir algo tão grande como o sol. {fim do spoiler}

Ao final da sessão é exibido o curta Tea For Two, escrito, dirigido e atuado por Julia Katherine. Com enquadramentos e cenas que parecem ter saído de um Wong Kar-Wai, nós acompanhamos os encontros e desencontros emocionais de personagens no meio da uma madrugada em São Paulo.

Como em Lembro Mais dos Corvos, a intimidade dessas personagens é colocada em cena em seus momentos mais delicados; briga entre irmãos, um relacionamento já enfraquecido que termina e um outro que consegue surgir mesmo entre tanta solidão. Estreante na direção, Julia consegue com o curta mostrar não só um profundo amor pelo cinema mas também um olhar cuidadoso e tenro para personagens enfrentando que enfrentam alguma crise.

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