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Green Book: O Guia

18.1.19

Green Book: O Guia || Estreia em 24 de janeiro de 2019
Crítica: Raísa Maris Reina


O green book que dá título ao filme é um guia de viagens para homens e mulheres negros feito por Victor Hugo Green, funcionário dos Correios. Publicado anualmente entre 1936 até 1966, esse guia informava o nome e localização de estabelecimentos aonde negros eram aceitos e poderiam se sentir seguros. O filme “Green Book: O Guia” se passa em 1962 e tem como plano de fundo, como o guia, o auge das Leis de Jim Crow, que representam a segregação racial nos Estados Unidos. O longa de Peter Farrelly é baseado na história verídica do ítalo-americano do Bronx, Tony “Lip” Vallelonga (Viggo Mortensen), que é contratado como motorista de Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), pianista clássico negro, em sua turnê pelo Sul dos Estados Unidos. Peter Farrelly também assina o roteiro com Brian Hayes Currie, que tem uma pequena aparição no filme, e Nick Vallelonga, filho de Tony.

A presença do filho de Tony Lip como um dos escritores poderia justificar o porquê do filme parecer muito mais uma ode à figura de Tony do que a tentativa de contar a história de uma amizade improvável durante um dos tempos mais tenebrosos da história americana. Mas me parece que os problemas de roteiro que Green Book tem vão além disso. Sendo um longa que tem o racismo tão nitidamente presente em cada uma das cenas, o roteiro parece tratá-lo de forma trivial. Já no trailer é possível ver uma cena de confronto entre Don e Tony onde o pianista diz “se eu não sou branco o suficiente ou negro o suficiente, então me diga: o que eu sou?”.


O uso da palavra “o que” (what) ao invés da palavra “quem” (who) me parece sintomático e, além disso, ele joga a pergunta para Tony, como se ele pudesse responder e não Shirley. A figura de Dr. Don Shirley é um mistério que o filme parece não ter interesse em desvendar. Qualquer momento em que ele se vê diante de uma crise é usado muito mais para beneficiar e impulsionar o desenvolvimento de Tony, do que para de fato contar também a sua história dentro dessa amizade. Todas as cenas em que Shirley é agredido por algum personagem branco, algo que acontece frequentemente e de diversas maneiras, qualquer oportunidade de colocar sob discussão os desdobramentos da segregação racial na vida de um músico negro que transita entre a mais alta classe (branca) americana consagram Tony como um herói.

E de fato, durante muitas dessas cenas, ele é escrito como um herói de filme de ação que por mais agressivo que seja, sempre aparece para salvar o dia com a sua violência justificada. As tentativas de investigar e debater sobre as questões materiais que unem e as que separam Shirley e Tony, que passa por sérias dificuldades financeiras, são imediatamente empurradas para debaixo do tapete por conta da insistência do roteiro em uma saída superficial para a solução do incessante e descomunal problema que é o racismo. Solução esta que parece dizer que tudo ficará melhor quando os dois lados aprenderem a aceitar suas diferenças.

Entretanto, não significa que Green Book seja um filme racista. Talvez o mais adequado seja dizer que seu roteiro é ingênuo diante da presença do racismo na história americana. Viggo Mortensen e Mahershala Ali conseguem em cena nos apresentar uma amizade que parece se desenvolver de maneira orgânica, e as cenas em que Dr. Don Shirley toca piano são bem construídas, mas não são suficientes para redimir um roteiro tão distante da realidade.

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