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Assunto de Família

9.1.19

Assunto de Família || Estreia em 10 de janeiro de 2019
Crítica: Karla Nayra

"Duas horas de reflexão belamente detalhista sobre laços familiares."


Um grupo de vigaristas de um bairro pobre japonês se reúne em torno de um objetivo pouco provável: formar uma família. As cenas de crimes como furtos e pequenos golpes praticados por eles são apenas o pano de fundo de uma narrativa mais relevante. Esse aspecto fora da lei é o que estabelece a conexão entre os personagens. Porém, a questão central deste filme é um belo convite que o diretor Hirokazu Kore-eda nos faz à reflexão sobre valores de vida que adotamos. Kore-eda fornece material suficiente para questionarmos como os afetos são cultivados e demonstrados em um núcleo familiar nada convencional.

Em primeiro plano, o diretor apresenta a história da pequena Juri (Miyu Sasaki) que é encontrada com fome e com frio sozinha na casa de seus pais por Osamu Shibata (Lily Franky), um “ladrão de galinhas” que havia acabado de roubar um pequeno mercado junto com seu comparsa mirim - Shota (Jyo Kairi). A princípio Shibata tem apenas a intenção de alimentar e aquecer a garotinha, mas a pequena vai permitindo que suas raízes cresçam e se estabeleçam na casa da família que a acolheu e que, consequentemente, ela escolheu. Aqui, Kore-eda faz um trabalho extremamente sensível ao estabelecer conexões entre a menina e os membros da nova família. Pequenos eventos como ressignificação de conceitos trazidos pela menina Juri vão revelando o quão profundo é o relacionamento nascido ali.


Além da sensibilidade com a qual trata o amor fraterno, Kore-eda nos dá elementos narrativos para elaborarmos nossa própria reflexão sobre modelo capitalista no qual estamos inseridos. O personagem de Lily Franky, além de ladrão, é um operário em um canteiro de obras. Sua esposa Nobuyo Shibata (Sakura Ando), também operária e ladra, trabalha para uma empresa da indústria têxtil. Na casa, há ainda uma prostituta e uma idosa. Todos tentando sobreviver com o pouco que recebem, fazendo dos furtos uma forma de renda extra. A preocupação com o dinheiro como meio de subsistência é constante. Porém, a busca incessante dos personagens em manter suas relações fraternas de forma amorosa desvela um conflito que desafia o equilíbrio entre o dinheiro e o amor. Esse conflito, mesmo que trabalhado em um curto espaço de tempo, é marcado de forma clara e concisa.

De um modo geral, os atores estão bem dirigidos e, em algumas cenas, tive a impressão de estar assistindo a uma dança, pois a sincronia entre os personagens, a câmera, os planos escolhidos e toda a misancene fluíam perfeitamente. Um destaque especial vai para os olhares penetrantes do menino Shota. O olhar do garoto é como duas garras que capturam a atenção do espectador. O segundo destaque vai para o sorriso fácil, mas profundamente cativante de Osamu Shibata. Ele nos entrega uma expressão de ternura e, apesar de malandro calejado, seu sorriso revela uma certa ingenuidade diante das questões mais complexas da vida contemporânea como, por exemplo, o capitalismo selvagem – contexto no qual está inserido.


O filme também nos conta várias histórias que não estão explicitadas nos diálogos, mas estão presentes na narrativa em um sentido mais amplo como, por exemplo, a metáfora da previsão do tempo que anuncia alguns acontecimentos durante o filme. A temperatura quente para indicar cenas de aconchego em família e a temperatura fria que mostra que momentos de tensões estão por vir. Os momentos das refeições, que são muitos, anunciam cenas de agradáveis encontros e experiências em família. Mas, talvez, a maior metáfora do filme seja sobre o furto. E aqui, deixo-lhes uma questão provocadora: o que é realmente roubado nessa história?

O diretor Hirokazu Koreda está nos dizendo que uma família de vigaristas pobres é capaz de nos ensinar importantes lições sobre como as conexões familiares são estabelecidas. Além disso, nos leva a questionar sobre o quanto as convenções sociais impostas por leis ignoram sobretudo os verdadeiros afetos. E como essas regras são capazes de roubar e aniquilar laços familiares formados, não pelas normas vigentes da lei, mas por conexões genuínas entre almas.

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