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23/11/2018

Vox || Christina Dalcher


Como eu demorei para vir escrever sobre Vox. Essa leitura demandou muito de mim e logo que eu terminei, além de me deixar com ressaca literária, não conseguia me expressar bem em relação ao que eu senti com ela. Por isso esperei passar uns dias e agora me sinto com as ideias mais organizadas. Vox ficou muito em alta nas eleições e deveria ser lido não só nessa época e não só as mulheres, embora o foco sejamos nós porque nos atinge principalmente. Ele é um livro que traz reflexões para qualquer pessoa que entende a repetição do jogo político e como é fácil cairmos nas armadilhas de resoluções fáceis, de problemas que são resolvidos da noite para o dia. Me adiantei um pouco sobre o que achei do livro, mas olha só do que ele fala.

Vox vai se passar num presente em que depois do Obama quem venceu as eleições foi um presidente com viés religioso. Quem comanda o que acontece não é bem o presidente, e sim o seu braço direito, um líder religioso que ganhou adeptos com um discurso conservador. Com um discurso que poda a mulher e faz ela voltar a como era lá no começo da humanidade mais ou menos, que vê as minorias como problema e decide exterminá-las caso não se moldem a como é agora, que vê o homem como o ser mais importante depois de Deus. Uma das medidas que esse novo governo implanta é um contador de palavras nas mulheres, que só podem falar cem palavras por dia. E isso não é diferenciado por idade, então as crianças do sexo feminino também usam esse aparelho.
Foi uma conjunção de forças tão silenciosas que nem tivemos chances de organizar nossas fronteiras. (...) Você não pode protestar conta o que não vê se aproximar.

É nesse universo que somos apresentadas à protagonista Dra. Jean McClellan, ela era neurolinguística e agora é só dona de casa. Óbvio que as mulheres não poderiam trabalhar e ficam cuidando do marido e filhos. Não vou entrar em todos os por menores desse novo sistema porque tem muita coisa que mudou, então estou contando só o que vai fazer sentido para vocês pegarem um pouco da estória. Quando acontece um acidente com o irmão do presidente e só a Jean pode ajudar, já que afetou a fala do cara e era esse o tema da pesquisa que ela fazia, Jean é chamada para trabalhar novamente e salvar esse personagem. Num primeiro momento ela quer recusar, depois de resolvido o problema ela voltaria para casa e não trabalharia mais. Mas depois ela pensa melhor e vê nisso uma possibilidade de mudar o caminhar dos acontecimentos.

A primeira coisa que você tem que saber sobre Vox: vai sentir muita raiva, angustia e sufocamento lendo essa estória. Não é algo que você faz de uma vez, precisa parar e respirar fundo. Eu só consegui ler intercalando com outra leitura. Esses sentimentos ruins te acompanham a leitura inteira, mas chega um momento que você também sente esperança, já que a Jean tenta consertar as coisas de alguma forma. O que essa distopia tem de diferente das outras é que aqui nós vemos como o governo autoritário foi instalado, não é por golpe nem da noite para o dia, é através do povo e das eleições. Isso é explicado no passado enquanto a Jean vive as consequências no presente. Então, nós não somos jogados na distopia e acompanhamos a sua queda, nós lemos como tudo aconteceu quase que como um aviso.
Todas aquelas casas são pequenas prisões, penso, e dentro delas existem celas na forma de cozinhas, lavanderias e quartos.


Isso é muito interessante, porque a Jean se culpa de não ter prestado atenção aos sinais e de ter se omitido nas horas decisivas. Ela via o discurso de ódio crescendo e não participou das manifestações contrárias, ela teve a oportunidade de votar e não foi. Quando ela percebe que tudo saiu do controle e eles estavam entrando em um caminho sem volta, era tarde demais. A grande reflexão do livro é exatamente essa, a importância que é participar dos debates políticos que estão acontecendo, se informar, porque se acontecer algo você vai sofrer as consequências tanto quanto os outros. Essa proximidade com a realidade é muito assustadora e faz você perceber, pelo menos para quem tem conhecimento de história ou lê sobre o assunto, que o passado constantemente se repete.

Apesar da leitura de Vox ser difícil e realista, ela é necessária. Em tempos como os que estamos vivendo, qualquer alerta é importante e independente das suas ideologias políticas fique atento para não ser enganado. No fim não são os políticos que sofrem são os nós e eles. Vale ressaltar que o livro também aborda a importância que a fala tem no desenvolvimento do ser humano. Quando as crianças não tem liberdade de se expressar, no caso da estória usam contadores de palavras, o cérebro não se desenvolve, nem a fala e nem o aprendizado.

Olhei no skoob para marcar a leitura como lida e tomei um susto quando me deparei com o número 1 ao lado do titulo. Para mim era livro único, já que o final termina essa proposta. Claro que cabe desdobramentos porque a Jean termina colocando um plano em ação, mas eu não esperava essa confirmação. Não olhei pra saber se a autora já está trabalhando nele, nem quando será laçado, só sei que lerei com certeza. Vale a pena dar uma chance para Vox e ver até que ponto a política pode mexer com a sua vida.
- Há uma resistência?
- Querida, sempre há uma resistência. Você não cursou faculdade?
Vox #1
Christina Dalcher
Editora Arqueiro: Twitter/Facebook

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