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05/02/2018

O Insulto

O Insulto || Classificação: ★★★★ (Ótimo) || Estreia em 8 de fevereiro de 2018 
Texto: Murilo Maximiano || Revisão: Kamila Wozniak


Quando você vai assistir a um drama de tribunal existem requisitos mínimos, e que muitas vezes são esquecidos, para que o filme seja ao menos interessante. Eu diria que bons personagens e um tema maior que apenas uma rixa local são o cerne de todo bom filme desse estilo, e é maravilhoso como O Insulto nos traz tão mais e de maneira tão bem construída. Não é fácil, afinal, espelhar a tensão político-religiosa de um país em dois personagens sem que estes se tornem estereótipos unidimensionais. O longa nos leva a Beirute, onde um insulto explosivo faz de Toni (Adel Karam), um cristão libanês, e Yasser (Kamel El Basha), refugiados palestinos, para o tribunal.

De feridas secretas a revelações traumáticas, o circo midiático que envolve, divide o Líbano em uma crise social, forçando Toni e Yasser a reconsiderarem suas vidas e preconceitos. E o primeiro elogio vem para a construção - e atuação, claro - complexa e bem desenvolvida dos personagens. Como já disse, a tarefa de espelhar o conflito libanês em dois personagens sem cair a tendências ideológicas - um vilão e um mocinho - e sem estereotipar um ou ambos os lados é realmente hercúlea, e aqui é completada com êxito extraordinário. Apesar de, no início, o filme parecer pender para um lado, é através de um denso estudo de personagens e caso que vemos as várias camadas que levaram ao insulto que intitula o longa e a agressão seguinte.


Com flashbacks que em nada estragam o ritmo da narrativa - pelo contrário, ajudam a construir a tensão crescente - e cenas diversas dos personagens, vemos o humano por trás das posições ideológicas e políticas. O ritmo do filme é um êxito inegável. Construindo pouco a pouco a tensão enquanto o julgamento vai tendo consequências pela cidade, somos levados a não desprender o olho de cada situação que se abre ou se revela tanto sobre os personagens quanto sobre o julgamento em si e o posicionamento dos libaneses. De fato, a narrativa não se perde em momento algum, seguindo todos os atos com presteza e força.

O filme é bem claro ainda no que quer mostrar, se mantendo isento quanto às opiniões políticas, religiosas e ideológicas que arrebatam o país - e levaram ao julgamento, aqui vemos uma crítica ao preconceito e fanatismo, e como o apelo à violência e intolerância leva a guerras que nem um lado nem outro tem a ganhar. É realmente incrível ter, a partir de uma premissa tão simples quanto uma calha quebrada, tantos níveis de percepção. Não é preciso conhecer a situação previamente para se absorver a quantidade de preconceitos e tensões históricas que residem num simples insulto.

O Insulto merece completamente sua indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e com certeza é um candidato forte. Apesar de não ser um filme perfeito - e quantos o são - é humano, delicado, forte e profundo, trabalhando tensões e personagens em diversas camadas. É um longa que merece e deve ser visto.


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