Lucky

07/12/2017

Lucky || Classificação: ★★★★★ (Excelente) || Estreia em 07 de dezembro de 2017 
Texto: Murilo Maximiano || Revisão: Kamila Wozniak 


A iminência da morte é algo quase alienígena para nós. Tentamos nos afastar a todo custo da imagem clara do derradeiro fim que todas as coisas encontram, inclusive nós. O fim inevitável de tudo e a aceitação dessa realidade cruel que acaba por trazer a beleza e o sentido a tudo, é sobre isso que se trata Lucky e é sob esse pensamento que, depois de assistir ao longa, ficamos ponderando. É muitas vezes difícil falar de um filme como esse, que transmite tanta profundidade através de um todo cinematográfico.

E de um todo, que fique claro o papel mais importante aí, o ator que vive o personagem que dá título ao filme, Harry Dean Stanton. Em seu derradeiro papel (Stanton morreu em setembro desse ano, aos 91 anos), o veterano do cinema vive um personagem que parece, em seu drama existencial, com o próprio ator. Vendo-se diante da inevitável morte, criador e criatura enfrentam o mesmo arcaico medo, e isso dá uma camada de veracidade lacerante ao longa. O texto e direção são extremamente competentes, deixam tudo subjetivo à visão do espectador.

Sem falas ou diálogos extremamente expositivos, temos cinema em sua forma pura, imagem, som e atuação transmitindo conceitos através da delicadeza da arte e da empatia do espectador. Belo é o que define esse retrato de uma situação que cedo ou tarde chega para todos nós. As cenas passam como os momentos que passamos com Lucky, três ou quatro dias, que passeiam por situações cômicas, vazios existenciais e uma superação que pode parecer clichê, mas traz um monólogo que simplesmente é de arrepiar.


Realmente, o roteiro é lindo! Várias aparições, David Lynch (Howard), Tom Skerritty (Fred, o veterano da segunda guerra), James Darren (Paulie) – muitos personagens coadjuvantes – dão ao longa um tom de homenagem à Stanton, dando à essa estreia póstuma ainda mais brilho. É claro que esse filme continuaria brilhante sem a morte do ator, mas esse acontecimento aumenta em significado toda a mensagem e construção da narrativa. Algo que não podia deixar se ser citado é a trilha sonora.

Regada de countries, com presença forte de Johnny Cash, ela traz um clima interiorano e muitas vezes desolador, que acaba por interagir de maneira plenamente orgânica com o todo. E no final, obras assim não são explicadas, são sentidas. Lucky inevitavelmente vai gerar desconforto ao nos aproximar tanto daquela caminha lado a lado com a vida. Com um personagem estupidamente bem construído que cai como uma luva para Harry (ou foi construído para ele, um texto competente que trata seu tema e espectador com a sutileza que é necessária e com um tema extremamente interessante, tão próximo e tão longe de muitos de nós, encontramos aqui um forte candidato a melhor filme de 2017). Vale a pena conferir no cinema.



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