As Duas Irenes + Entrevista com o diretor Fábio Meira

15/09/2017

As Duas Irenes || Classificação: ★★★★ (Ótimo) || Estreia em 14 de setembro de 2017 
Texto: Ana Marta || Revisão: Kamila Wozniak

“A sutileza nas descobertas da adolescência”


É tão raro encontrar uma obra que narra a sua história de forma simplória, em As Duas Irenes vemos algo sutil sobre as descobertas e transformações na adolescência entre as protagonistas. Sensacional! A trama narra a vida de Irene (Priscila Bittencourt), filha do meio de uma família tradicional do interior, que descobre que seu pai (Marco Ricca) tem outra filha e que também se chama Irene (Isabela Torres). Revoltada, a Irene se aproxima mais da sua meia-irmã e se inicia um novo mundo de descobertas. O ponto forte do filme é, de como o roteiro consegue transmitir para o espectador.

Abordando temas sociais (puberdade na adolescência, questionamento da personalidade e o machismo) de uma forma simples, sem exagerar ou ser chamativo. A ideia é mostrar um espelho entre as protagonistas, e seus pensamentos sobre as suas descobertas e transformações da adolescência para fase adulta. Com certeza, você vai se identificar com os conflitos pessoais entre as duas personagens e sentir o que estão passando. Todo o processo é transmitido através de poucos diálogos e deixando a própria câmera (enquadramento, tom de cores do cenário e trilha sonora) dizer para o público todo o sentimento de frustração, alegria, confusão e amor entre os personagens.


Isso da forma mais harmônica e equilibrada, deixando as cenas, principalmente entre as duas Irenes, mais poéticas e dramáticas. O único ponto negativo, ou diria, que pode incomodar alguns espectadores, é o ritmo um pouco lento em narrar a história. O roteiro tem sim diálogos entre seus personagens, mas prefere abordar mais a narração visual – o silêncio de alguns personagens e cenas de paisagem com som ambiente. Tudo isso, transmitidos de forma mais lenta para narrativa e não diria que isso possa atrapalhar, mas pode incomodar em alguns pontos do filme.

O filme não marca apenas pela excelente história, mas também pelas atuações fantásticas das atrizes Priscila Bittencourt e Isabela Torres como a personagem Irene. Com certeza, as duas são a chave principal de entendermos e compreendermos todas as sensações que as personagens estão passando. Mostrar um lado da Irene mais fechada e inquieta, enquanto a outra ser mais extrovertida e aberta. Quando juntas, elas se completam e tentam entender as descobertas que estão passando pela adolescência e ao mesmo tempo tentando entender que são filhas do mesmo pai, porém de mães diferentes.


Portanto, As Duas Irenes mostra que mesmo com uma abordagem ao tema social, podemos enxergar uma delicadeza e inocência através das protagonistas e da própria história. Com certeza, um filme que deve ser apreciado!

Entrevista com diretor Fábio Meira de “As Duas Irenes”

As descobertas na adolescência é a abordagem principal, além de outros temas em As Duas Irenes dirigido/escrito por Fábio Meira. O filme que estreou em 14 de setembro, foi selecionado para o 67º Festival de Berlim e na seção “Generation”, traz uma abordagem delicada e inocente entre as duas protagonistas.

O Portal Crítico entrevistou o diretor Fábio Meira, que contou como foi o processo de criação em As Duas Irenes.

Portal Crítico: Como foi o processo da ideia principal do filme? 

Fábio Meira: Para mim, era importante que a personagem Irene tivesse seus 13 anos porque seria a passagem da adolescência para a fase adulta. Aquele momento que sentimos a perda da inocência e da identidade, e percebendo um pouco de como a sociedade é atualmente. Onde vemos que a sociedade é feita de hipocrisia, segredos e códigos. A Irene está nesse momento de entender como ela é e de quem ela vai ser. Então, por isso o filme tem tanto espelho, porque ela se observa para entender a si mesma e dentro da família. Eu mesmo olhava muito no espelho para saber se parecia com meu pai ou com a minha mãe e se tinha alguma característica de cada um. Então, a Irene está nesse processo de descoberta.

Portal Crítico: O filme transmite a história visualmente ao invés do uso dos diálogos para narrar os conflitos. Essa foi a ideia principal, em transmitir uma história mais visual ao espectador? 

Fábio Meira: Sim! Como espectador, gosto muito dos filmes que não entregam de cara a história, poder adentrar no filme e que possa conversar comigo. Fui aluno do Gabriel Garcia Marques em Cuba, ele falava uma coisa que no cinema, o texto e diálogo não se combinam, por exemplo: quando você lê os diálogos do livro, você está lendo na sua cabeça, mas no cinema é a imagem e som. Então, a ideia era reproduzir esse universo interior dos personagens e o espectador poder enxergar que a Irene é introspectiva. E tem um momento no filme que a outra fala: “Nunca dá para saber o que está pensando” – uma característica vinda do pai (Marco Ricca). É nesse universo interior que me interesso mais.

Portal Crítico: Em momento algum, o filme confirma uma época específica. Como foi trabalhar a história social encaixando aos dias atuais? 

Fábio Meira: Era muito importante que o filme não tivesse uma época marcada. Então, você não sabe qual década se passa apesar de um cenário de cidade de interior antiga, por exemplo: O uso da enceradeira na cena. Um hábito diário, mas ultrapassado. A ideia é passar um tom antigo e antiquado porque a sociedade patriarcal, é ultrapassada. O filme tem como objetivo de se comunicar com várias gerações. Para mim, o filme é quase uma fábula: “onde uma menina descobre que tem uma irmã com mesmo nome e idade, mas que possui uma personalidade oposta que a dela.”

Portal Crítico: Foi difícil trabalhar a ideia do filme com as atrizes? 

Fábio Meira: Não! A atriz Priscila Bittercourt estava passando pelas as mesmas situações que a sua personagem Irene, por exemplo: o primeiro beijo da Irene na cena, foi o primeiro da atriz. Assim como do ator que participou da cena. Os dois estão se beijando pela primeira, tanto na ficção e na realidade. Acho muito bonito, uma atriz nata que deu seu primeiro beijo fazendo um filme. Como se fosse o chamado da natureza, por isso as cenas de árvores, ventos e de bichos, como de alguma maneira a natureza estivesse presente no convívio dos personagens.



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