O Estranho que Nós Amamos

09/08/2017

O Estranho que nós Amamos || Classificação: ★★★★ (Ótimo) || Estreia dia 10 de agosto de 2017
Texto: Murilo Maximiano || Revisão: Kamila Wozniak

“Um retrato de mulheres, presas em uma casa na época da Guerra Civil, em contato com um homem.”


O Estranho que Nós Amamos é mais um estudo de personagem, um drama pessoal de cada indivíduo presente no filme, que o suspense que pode ser vendido. Aqui, Sofia Coppola é extremamente competente em trabalhar a sexualidade, os sentimentos e a sensação de prisão sofrido pelas mulheres e meninas, ao mesmo tempo que nos passa um visão não estereotipada de um homem, jogado no meio de uma guerra que não lhe pertencia, que agora é desejado e se percebe em um situação extremamente mais cômoda.

Virginia, em 1864, três anos após o início da Guerra Civil. John McBurney (Colin Farrell) é um cabo da União que, ferido em combate, é encontrado em um bosque pela jovem Amy (Oona Laurence). Ela o leva para a casa onde mora, um internato de mulheres gerenciado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman). Lá, elas decidem cuidá-lo para que, após se recuperar, seja entregue às autoridades. Só que, aos poucos, cada uma delas demonstra interesses e desejos pelo homem da casa, especialmente Edwina (Kirsten Dunst) e Alicia (Elle Fanning).


A primeira coisa a se notar na trama adaptada por Sofia Coppola é sua forma enxuta. Pouco se mostra diretamente sobre a história das personagens, o tempo todo é sugerido – através de diálogos e referenciais – o passado de cada uma delas, como de onde vêm ou o porquê de estarem ali, no internato de mulheres enquanto a guerra acontece. Isso gera no espectador a sensação de um visitante – assim como o é para John – e ajuda a manter a aura de tensão que permeia toda a obra. É uma pena, porém, que tal austeridade no roteiro também acabou por deixar parte do filme um pouco arrastado, quase sem graça…

Não que realmente o seja, Sofia Coppola consegue através de tanto da fotografia – sempre com um certo tom bucólico, que nos relembra sempre da situação deplorável do sul durante a Guerra Civil americana – quanto pela falta de trilha sonora, manter certa tensão que torna cada cena sempre levemente desconfortável e cria perfeitamente a situação que possivelmente cada pessoa ali estaria sentindo. Ainda assim, talvez apenas o clima e a construção narrativa não tenham sido o bastante para tornar o todo – e principalmente o segundo ato – interessante. Quanto a atuação, tudo muito bom. As personagens todas são contidas e deixam suas intensões e emoções serem desvendadas aos poucos. Os destaques ficam com Nicole Kidman, Elle Fanning, Kirsten Dunst e Colin Farrell – pois é, quase todo o elenco.


Kidman apresenta Martha de uma maneira intensa e contida, ainda que sempre tentando manter o controle, é possível ver as frestas de desejo e medo que saem dela aqui ou ali. Fanning desde o início deixa claro estar fazendo uma adolescente, ainda que a idade nunca seja dita. Assim, ela se mostra sempre sem paciência para o dia a dia da casa e demonstra uma luxúria intensa ao ver McBurney, tudo ainda contido, nada estereotipado como uma sedutora clássica ou coisa assim, uma adolescente com desejos simplesmente. Dunst parece sempre um pouco deslocada na casa, ainda que seja uma professora, e mantém um olhar sem vida, de alguém que desistiu de seguir os sonhos, que aos poucos muda com a presença de McBurney.

E finalmente, Colin Farrell apresenta não um sedutor ou fanfarrão, seu John McBurney é apenas um homem com um destino infeliz até então que se vê em uma situação de melhoria clara, e planeja fazer o possível para se manter assim. E assim temos um bom filme, talvez um pouco lento, mas que triunfa muito bem em seus pontos fortes. Talvez a falta de acontecimentos que acompanha a tensão e a construção dos excelentes personagens atrapalhe a experiência para muitos, fazendo o filme parecer ser bem maior que é – aquela velha sensação de que já deveria ter acabado. Mas sem dúvidas a elegância com a qual Sofia Coppola dirigiu o longa merece ser vista.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.