Bingo: O Rei das Manhãs

24/08/2017

Bingo: O Rei das Manhãs || Classificação: ★★★★ (Ótimo) || Estreia em 24 de agosto de 2017 
Texto: Murilo Maximiano || Revisão: Kamila Wozniak 


Bebidas, drogas, sexo, tudo o que não combina com a vida de um palhaço, principalmente quando falamos de um que reinou absoluto nas manhãs entre 1981 a 1991. Bozo marcou uma geração inteira e Bingo: O Rei das Manhãs vem não só como homenagem a um dos atores (Arlindo Barreto, o terceiro Bozo) como aos anos 80 em geral, especialmente à nossa TV, que estruturava ali nos moldes em que conhecemos. O nome do palhaço foi uma das muitas alterações por questões de direitos autorais, de Bozo para Bingo.

Quem disso temos outras claras referências, como a rede Mundial (Globo) e a TVS (SBT). Com as mudanças necessárias, o filme segue baseado na vida de Arlindo Barreto e ainda pega coisas dos outros intérpretes do palhaço, criando um mix chamado Augusto Mendes (Vladimir Brichta). E em meio a bebida, palhaçadas, drogas e mulheres, temos o drama de um homem que começa a ter dificuldades em se manter próximo ao filho, além da frustração inevitável de nunca poder revelar que é Bingo – parte do contrato que assinou.


Numa atuação inspiradíssima de Brichta, vemos Mendes conseguir o papel como bingo e revolucionar a TV, estragar tudo em sua carreira e com a família, e finalizar com um monólogo que diz imensidões sobre o personagem que está em tela. Tudo de maneira pungente, ainda que sutil quando necessário. Além disso, a fotografia segue belíssima, ajudando a história a se desenvolver e trazendo o que palavras não poderiam. Com momentos lúdicos que se assemelham a palco – ou picadeiro, em cenas onde a iluminação simplesmente fecha em um holofote, podemos ver a interação de Augusto com o mundo, como ele foi feito para o palco, de fato. De fato, Daniel Rezende se mostra muito competente na direção.

Não apenas com a fotografia que demonstra saber exatamente o que quer, mas com os planos inteligentes e bem elaborados que sozinhos já montam parte da história – menção honrosa a um plano sequência incrível próximo ao final. Além disso, o andar do filme é excelente – apesar de uma aparente perdida no roteiro em um ponto do segundo ato – e desenvolvendo de maneira ágil e simples os personagens, sem deixar raso, subutilizado ou desnecessário. A ambientação oitentista é um show a parte. De fato, os anos entre a década de 80 e 90 foram de uma transgressividade que acabou por gerar pérolas que só podiam ter nascido e existido no Brasil e nessa época.


Um exemplo é quando, no intuito de aumentar a audiência, Bingo traz Gretchen (que mantém seu nome no filme) rebolando ao som de “Conga”, tirando risadas de crianças e suspiros de um certo palhaço. De fato, toda essa excentricidade brasileira pode ser resumida no bordão de Tom Jobim já muito conhecido por todos – e proferido no filme quando Augusto tenta convencer os produtores que o programa americano original não agradaria crianças brasileiras, “o Brasil não é para principiantes”. Bingo: O Rei das Manhãs é uma obra brilhante, recheada com atuações extremamente inspiradas, uma fotografia maravilhosa e um roteiro que tira o melhor do pouco material que tem – afinal, muito ali não pode ser utilizado.

Talvez o único problema seja um momento, no meio do 2º ato, quando o roteiro parece se perder, mas nada que estrague o filme como um todo. Além de temos o retrato da TV brasileira nos primórdios do que seria seu formato atual, com bizarrices que marcaram uma geração e o Brasil em si. Um drama saudosista sobre um personagem que merecia ter seu nome marcado em um filme, com certeza vale a pena ser visto.



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