Atômica

28/08/2017

Atômica || Classificação: ★★★ (Bom) || Estreia em 31 de agosto de 2017 
Texto: Murilo Maximiano || Revisão: Kamila Wozniak


É muito interessante como o abismo entre a qualidade cinematográfica em geral e o roteiro podem atrapalhar o bom desempenho de um filme. É esse o maior problema de Atômica, com uma produção/direção e fotografia beirando ao genial e ficando o tempo inteiro a decepção de uma história tão fraca. Lorraine Broughton (Charlize Theron), uma agente disfarçada do MI6, é enviada para Berlim durante a Guerra Fria para investigar o assassinato de um oficial e recuperar uma lista perdida de agentes duplos.

Ao lado de David Percival (James McAvoy), chefe da localidade, a assassina brutal usará todas as suas habilidades nesse confronto de espiões. Interessante que no mesmo instante que são introduzidos os personagens e a trama, é possível deduzir absolutamente tudo sobre o filme. Você logo sabe quem é confiável ou não é, e quem vai trair ou não vai. Semelhante ao filme John Wick, uma trama objetiva e simples, mas Atômica engana o espectador e constrói a trama de maneira que fica a impressão de que o espectador deveria está achando tudo interessante e não deveria saber quem é o safado ali, mas no fundo sabe. Resumindo, o roteiro se acha inteligente e sagaz, mas claramente não é e isso causa frustração.


Além disso, a história demora a engrenar como se o diretor demorasse a entender o timing do filme. O longa começa bem, numa sequência que mostra Lorraine numa banheira com vários machucados e então volta no tempo. Mas quando a trama deveria deslanchar, o filme acaba ficando cansativo e recuperando sua forma apenas no final do 2º ato – ou talvez no início do 3º ato. A verdade é que toda a trama que parecia ser intrigante como um filme de espiões deveria ser, se mostra desinteressante e previsível.

Nem ao menos nos importamos com os personagens para ficarmos triste com essa morte ou com a vitória deste outro, parece que simplesmente não dá para se importar. Quando aparece a reviravolta no final, ela é tão desempolgante que tudo que é possível esboçar é:“Ah, era isso? Não faz muito sentido, mas ok”. É aí, que vem o mais interessante apesar de um roteiro fraco para contrabalancear uma direção maravilhosa de David Leitch, digna de uma das melhores cenas de luta do cinema recente. O primor com o qual os planos são montados – muitas vezes lembrando os ambiciosos quadros de HQ’s – utilizando cores e marcações inusitadas faz algumas cenas impressionarem.


O destaque fica para um plano sequência que se inicia na cena de luta incrível em um prédio, passa para uma perseguição de carros majestosa e finaliza com… não vou dar spoilers 😂. Em vários momentos a câmera se comporta como uma pessoa, e dentro da cena, vemos os acontecimentos – às vezes inclusive se escondendo, se desviando de ataques, se sujando de sangue e olhando para os lados rapidamente dentro de um carro. Simplesmente incrível! Junto a isso, temos uma remixagem de som linda que praticamente nos faz sentir os murros, chutes e tiros levados pelos personagens, tudo muito realista – ainda que cartunesco, com headshots para todos os lados.

A maquiagem ajuda, deixando os personagens com roxos e escoriações no meio das cenas de ação – nada como um olho roxo inchando no meio de uma luta. A trilha sonora seria um ponto forte, seguindo a escola de Guardiões da Galáxia e Baby Driver, de incorporar músicas conhecidas e inusitadas às cenas. Dando aquela sensação interessante de vídeo clipe e uma interação com a trilha. Mas essa parte não é exatamente bem feita e a repetição contínua de cenas com músicas altíssimas acaba por irritar e cansar. Não me leve a mal, o filme é tão descolado quanto vende, só não executa bem.

E por fim, quanto aos atores, nada de mais a se declarar – e olha que estamos falando de John Goodman, James McAvoy e Charlize Theron. A atriz Charlize Theron consegue passar a sensualidade, a frieza e o pensamento duplo que se espera de uma espiã, mas que no fim, o roteiro não permite que algo realmente saia de incrível. Atômica é esteticamente incrível, com cenas de ação e fotografia impressionantes, mas que leva sua história fraca e desinteressante a sério demais, tornando um filme chato e cansativo em alguns pontos. Como iniciei nesse texto, o abismo entre produção e roteiro é grande demais, e isso com certeza perturba.



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