Colossal

16/06/2017

Colossal || Classificação: ★★★★ (Ótimo) || Estreou dia 15 de junho de 2017
Texto: Murilo Maximiano || Revisão: Kamila Wozniak


À primeira vista, uma comédia de monstros, Colossal realmente parece um filme até passável, algo que se veria numa Sessão da Tarde da Vida. Mas o desenrolar da trama mostra outra coisa. Ainda que divertido, a substância principal do longa reside num drama pessoal vivido pela protagonista e um tema importantíssimo que pega o espectador tão de surpresa quanto os personagens. Tudo isso num filme de monstro gigante. Gloria (Anne Hathaway) deixa Nova York e volta para sua cidade natal após perder o emprego e o noivo.

Ao acompanhar as notícias sobre o ataque de um monstro gigante a Tóquio, ela descobre que está misteriosamente conectada mentalmente ao evento. Para evitar novos casos parecidos e uma eventual destruição total do planeta, Gloria precisa controlar os poderes de sua mente e entender por que sua existência aparentemente insignificante tem tamanha responsabilidade no destino do mundo. No desenrolar inicial do filme, somos apresentados a algo que se assemelha muito a uma comédia romântica – com aquele clássico toque de personagem que vai sofrer superação.


Gloria é uma alcoólatra que, depois de perder o emprego, continua apenas bebendo e dormindo o dia inteiro. Perde o noivo, volta pra cidade natal, reencontra um amigo de infância – que agora é dono de um bar e começa a trabalhar para o tal bar, entra num triângulo amoroso. Tudo se encaminha por aí. Quando a história do monstro ao qual ela está conectada aparece, a sensação é de que esse é o grande diferencial do filme. Ingênuo erro, mas voltaremos nisso mais adiante. O surgimento da trama onde a protagonista parece ligada a um monstro que aparece e destrói parte de Seul, na Coréia do Sul, traz um aspecto interessantíssimo ao filme.


Sempre se utilizando de um bom humor, inerente à personagem – e não à trama, que passa longe de comédia, fixa-se um contraponto entre o absurdo e o comum, o pitoresco surge na forma de um monstro, o comum surge na falta de responsabilidade ou noção de futuro de Gloria. Em ambos cenários, é necessário um salto à própria responsabilização, algo como “o mundo só muda se você mudar”. Usar o monstro como ponto de partida para o arco de evolução da protagonista deixa claro que o fantástico é apenas um subterfúgio para algo mais profundo.


O terceiro ato – e fim do segundo – é marcado por uma revelação que não esclarecerei aqui para não estragar a experiência, mas que dá um tom imensamente mais dramático ao filme, de certa maneira mostrando plenamente a que veio. Existem duas coisas a serem ditas sobre tal plot twist; primeiramente, a metáfora que se forma sobre o que verdadeiramente são monstros, criaturas gigantes destruindo uma cidade ou o que está dentro das próprias pessoas? Essa relação é instigante e muito bem aproveitada no longa. A segunda coisa a ser dita é como a forma com que esse tal evento ocorre é bem desenvolvido, e traz ao espectador o mesmo espanto e sensação de negação que a personagem, ou mesmo que qualquer pessoa que venha a passar por algo parecido. É uma sensação de incredulidade que poucas vezes se vê pontuada de maneira tão decente.

Colossal é isso, um “filme de monstro” que não é bem um filme de monstro. Uma comédia que não é lá bem uma comédia. Um drama que parece divertido demais para o ser. A melhor forma de caracterizar o longa estrelado pela ótima Anne Hathaway? Um filme sobre monstros, sejam eles caricaturescos ou apenas pessoas, e sobre como a mudança deve sempre partir de você mesmo.



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