Cine Cult: A Chegada

24/11/2016

A Chegada | Classificação ★★★★★ (Excelente) | Estreia em 24 de novembro de 2016
Texto: Murilo Maximiano | Revisão: Kamila Wozniak


OVNIs chegam ao planeta e governos de todo o mundo correm para fazer contato, e descobrir o motivo de sua visita. Sob uma premissa tão simples reside um questionamento e um forte pensamento filosófico acerca do tempo em si e da importância das pessoas ao nosso redor. Com um misto de ficção científica com algo mais intangível, menos palpável e impossível não se lembrar de Contato ou 2001: Uma Odisséia no Espaço. Denis Villeneuve (Os Suspeitos, Sicario: Terra de Ninguém) aqui mostra mais uma vez seu nível altíssimo de direção, levando o filme de maneira incrivelmente sofisticada e bela.

O primeiro elogio a ser tecido sobre o longa é a trilha sonora. Iniciando com uma música contemplativa – e seguida por um plano ótimo, revelando a fotografia incrível – o filme logo se mostra diferente de um sci-fi blockbuster. Com um tom imersivo e misterioso, os sons ajudam a narrativa a ser contada de maneira perfeita, lembrando em alguns momentos a forma como Kubrick usava o mesmo artifício em 2001. A trilha anda junto com a fotografia nesse sentido e traz emoção e/ou desorientação, sempre quando tal recurso é necessário à narrativa.


Dessa maneira, Villeneuve se utiliza de câmeras inversas para representar a gravidade do interior das naves e planos completamente simétricos que geram contemplação diante do estranho – como ao atravessar o corredor que leva ao interior do OVNI e planos detalhes com fotografia mais quente em memórias, dando um certo ar nostálgico e onírico aos flashbacks. Com tudo acontecendo dentro de uma mesma estética de certa forma melancólica, que carrega em si, toda a ideia do filme, como é possível ser percebido ao final. Os efeitos especiais são bons e fazem jus ao filme, os aliens são mostrados por entre uma névoa que impede que os vejamos plenamente.

O que contorna um problema corriqueiro de estranhamento em filmes que exigem computação para a criação de criaturas. Infelizmente, em alguns pontuais momentos é o roteiro. Algumas situações parecem forçadas e estranhas, mas no geral é competente. O ponto final onde toda a filosofia por trás da premissa é contemplada pelo espectador.É incrível e nos faz lembrar de outros momentos no filme onde as pistas sobre toda a ideia apareceram, o que demonstra que apesar de uns escorregões, o roteiro é satisfatório. Um ponto certeiro – além de toda a discussão sobre tempo, relações, comunicação, vida e morte – é a boa forma em que a linguística é utilizada.


Levantando questões e termos reais à ciência da linguagem, o roteiro introduz tal estudo satisfatoriamente ao espectador. Momentos como quando a Dra. Louise Banks (Amy Adams) diz que para os alienígenas “arma” poderia ser o mesmo que “ferramenta” ou quando diz que uma abordagem como o uso de xadrez (ou mahjong, no caso) poderia levar a interpretações erradas da linguagem e intenções dos alienígenas. Onde o jogo se utiliza de competição, quando em alguns momentos poderia ser necessária a ideia de colaboração. Tudo isso demonstra a complexidade ao se tentar compreender uma forma de comunicação inteiramente nova – e é importante ressaltar o brilhantismo de se criar uma forma de escrita circular para os alienígenas, onde toda a ideia da frase é recebida ao mesmo tempo, sem que as palavras sejam lidas uma a uma num tempo linear como compreendido por nós.

A cereja no topo fica com a excelente performance de Amy Adams que transmite assombro, melancolia e confusão de maneira excepcional ao longo das várias passagens do filme. De maneira completamente acertada, Villeneuve coloca o espectador sob a perspectiva da Dra. Banks, dando ênfase a atuação de Adams ao mesmo tempo em que permite que tenhamos as mesmas surpresas e emoções que a protagonista ao longo da narrativa. Só vemos os alienígenas mais de perto quando ela o faz, e sentimos a mesma ansiedade e inquietação que a Dra. quando esta está preste a adentrar o OVNI.

A Chegada é um ótimo candidato a clássico moderno no gênero e entra no exímio hall de ficções científicas que debatem assuntos profundos e metafísicos, deixando o espectador refletindo sobre a vida, a morte e o próprio tempo. Com certeza, esse não é o tipo de filme que se vê todo dia.




Um comentário:

  1. Olá,
    confesso que este estilo de filme não é dos meus favoritos, no entanto, Amy Adams vem se mostrando uma atriz excelente, que deixa qualquer filme excepcional.
    Gostei de saber mais sobre o enredo, já que tenho visto ampla divulgação do filme e não sabia do que se tratava.
    Beijos
    www.estilo-gisele.blogspot.com.br

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