Cine Cult: Nerve

25/08/2016

Nerve | Classificação: ★★ (Regular) | Estreia em 25 de agosto de 2016
Texto: Murilo Maximiano | Revisão: Kamila Wozniak


É incrível como uma ótima ideia, com uma crítica atual e contundente à forma com o qual nos relacionamos com as redes sociais e à internet, e que poderia levar a um filme realmente memorável pode ser destruída pela mediocridade daqueles que a desenvolvem. No filme, a tímida Vee DeMarco (Emma Roberts) é uma garota comum, prestes a sair do ensino médio e sonhando em ir para a faculdade. Após uma discussão com sua, até então, amiga Sydney (Emily Meade), ela resolve provar que tem atitude e decide se inscrever no Nerve, um jogo online onde as pessoas precisam executar tarefas ordenadas pelos próprios participantes.

O Nerve é dividido entre observadores e jogadores, sendo que os primeiros decidem as tarefas a serem realizadas e os demais as executam (ou não). Logo em seu primeiro desafio Vee conhece Ian (Dave Franco), um jogador de passado obscuro. Juntos, eles logo caem nas graças dos observadores que passam a enviar cada vez mais tarefas para o casal em potencial. A ideia de jogadores fazendo qualquer desafio para agradar seus observadores e se manter num jogo que logo se torna doentio é uma jogada ao absurdo do que já acontece num mundo povoado por YouTubers e outros criadores de conteúdo de redes sociais. Tudo por um like e por mais views.


O desenrolar do filme destaca muito bem a perversidade daqueles que se escondem por trás das telas de um celular, do anonimato da internet, e de quão longe as pessoas vão pela fama e para satisfazer seus egos diante das várias pessoas que as observam. Com um trilha sonora que lembra músicas de jogos dos anos 80 e com personagens que se encaixam muito bem na proposta, todo o filme começa muito bem elaborado e dirigido. Apesar de algumas situações claramente forçadas para que a tecnologia se mantenha constantemente presente, nada que incomode e, na verdade, tudo até esse ponto faz bem seu papel de nos colocar no mundo – não que já não estejamos – das redes sociais e da internet.

Os problemas do filme começam, de verdade, quando as intenções dos personagens começam a ser reveladas. Aparentemente com medo de mostrar as feições egocêntricas de pessoas que chegam a pontos absurdos, como andar de moto vendado para conseguir seus seguidores. O filme tenta o tempo inteiro justificar as motivações de todos por trás do jogo. Todos ali são, em determinado ponto, bons e éticos, todos tem um ótimo motivo para fazer tudo aquilo. É assim mesmo que as coisas são? O filme então se quebra ao final.


Se Nerve é uma metáfora às redes sociais e à interação entre produtores de conteúdo e consumidores, ao final temos a derrota pela consciência talvez da própria internet. É horrível ver a tentativa louca de se conseguir um final feliz, onde todos se dão bem em um filme que deveria criticar o dia a dia de todos e aonde tudo isso pode levar. Com vilões – os desenvolvedores do jogo – citados apenas como hackers mas nunca aparecendo fisicamente ou em qualquer menção mais direta, o filme falha ao deixar todos muito bonzinhos e terminando desistindo da internet e seguindo para suas vidas.

Nerve tinha um potencial incrível, mas é vítima da própria incapacidade de seus produtores. Pode ser a autora da obra de onde o filme se baseia, Jeanne Ryan, a roteirista Jessica Sharzer, os produtores ou os diretores Henry Joost e Ariel Schulman. Não adianta apontar nomes, o filme simplesmente não tem aquilo que poderia ter. Medíocre, ainda que interessante, ainda vale a conferida apenas pela reflexão que produz e pela noção do que poderia ter sido.




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