Cine Cult: Brooklyn

12/02/2016

Brooklyn | Nota: ★★★ | Estreou em 11 de janeiro de 2016
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak


Do premiado romance de Colm Tóibín, adaptado para o cinema por um dos roteiristas favoritos deste crítico, Nick Hornby, chega esse filme que fala de uma mulher irlandesa moradora de uma cidadezinha. Eilis Lacey (Saoirse Ronan), que vai buscar oportunidades em Nova Iorque por sua cidade ter poucas opções para ela. Assim ela passa a morar no Brooklyn e a trabalhar em uma loja de departamento, ficando gradualmente com saudade de seu lar. Quanto mais ela lê as cartas de sua mãe e irmã, mais se sente sozinha e intimidada por essa cidade gigante e pessoas estranhas. Pouco a pouco ela vai criando raízes, fazendo amizades e conhecendo pessoas, uma delas é Tony (Emory Cohen), um encanador de descendência italiana que gosta muito de garotas irlandesas, e eles se apaixonam. Tudo muda quando a irmã de Eilis, Rose (Fiona Glascott), falece repentinamente por conta de um problema no coração que ela manteve em segredo para todos. Eilis precisa retornar para a Irlanda e seu futuro se torna dividido entre os dois lugares.

Dentro da lógica da representatividade que tomou conta dos Oscars nessa edição de 2016, podemos observar que aqui se conta uma história sob a perspectiva de uma mulher num filme duplamente escrito e dirigido por homens. Os únicos departamentos que possuem chefia feminina são os clássicos, produção, maquiagem e casting. Em todos os filmes indicados podemos ver que parece ter ocorrido um surto de retrocesso quase que revanchista. Parece que os privilegiados de Hollywood estão querendo reafirmar a dominância ou algo do tipo, mas enfim.


O gênero do filme é drama, que foi muito bem construído. Eilis é uma personagem sólida e coesa, totalmente dentro do padrão que existia na época de garota bem comportada que pouco a pouco vai explorando novas coisas junto a Tony, que a respeita e conquista com o tempo. A dúvida conflituosa de Eilis diante de sua encruzilhada, ficar na Irlanda ou voltar para Nova Iorque, é bastante real e o roteiro não pinta nossa protagonista como insensível, mesmo que no fim ela transpareça muita passividade pelo fato de sempre ser motivada a escolher por conta das ações de outras pessoas. Claro que isso não é algo do qual se pode reclamar porque afinal estamos falando dos anos 50, a época onde a segunda onda do feminismo ainda usava fraldas. Não existe, inclusive, muita alusão a esse tema, o filme fica focado mais nas questões genéricas da época, por assim dizer. Talvez se o filme tivesse tido o dedo de uma mulher em algum dos departamentos de maior força e influência criativa o tema da segunda onda do feminismo teria sido mencionado de alguma forma.

A temática, a construção e os personagens de uma forma geral são rasos e simplistas. Historicamente, podemos dar crédito pela forma como o filme aborda a questão da imigração, da vida em Nova Iorque nos anos 50 e do funcionamento de uma cidadezinha na Irlanda ser tão semelhante ao de uma cidadezinha no Brasil que pode espantar muitos, mas para por aí. Se fôssemos entrar na profundidade da personagem de Eilis e na profundidade da perspectiva feminina dessa experiência da imigração, morar longe da família, se apaixonar, lidar com decisões impostas por todos ao redor e etc, o filme ficaria bem pobre.


Eilis é uma ótima irlandesa, transparece sua nacionalidade de uma forma bastante carismática, então podemos ver que o time de homens soube construir muito bem uma mulher irlandesa, em sua personalidade e senso de humor. Porém basta chegarmos na construção de Eilis como mulher que a coisa se resume a fofocas, paqueras, lágrimas, indecisão, flertes e etc. Ou seja, a percepção que Eilis nos transmite dela mesma como mulher não é tão expressiva quanto a percepção de si mesma enquanto irlandesa. Saoirse Ronan não merece ganhar um Oscar por esse papel, mas isso é culpa do diretor, que merece menos ainda um Oscar mesmo que ele e Saoirse Ronan tenham conseguido uma ótima performance de uma pessoa irlandesa. Tivessem conseguido fazer ela ser uma mulher também, aí o Oscar estaria no papo.

Um filme muito bom, mas que para o ano de 2016 certamente não abraça as temáticas que um público-alvo talvez apreciasse, como por exemplo as temáticas mais específicas do universo feminino de uma personagem da década de 50. Pra um filme genérico sobre uma história de um personagem raso, está muito bem escrito e bem filmado. Para um filme que fala de alguma coisa, está bem ruim.




Um comentário:

  1. Nossa, ótima crítica. Confesso que nem tinha conhecimento sobre esse filme, nem sabia que a Saoirse tinha sido indicada ao Oscar por ele.
    Fiquei interessada, mesmo a história tendo estes aspectos rasos citados na crítica.
    Gostei do trailer e irei assistir com os seus olhos, lembrando dos pontos que você citou, pra ver se concordo 100%!
    Mais uma vez, ótima crítica, parabéns!

    Beijo
    - Tamires
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