Cine Cult: Boa Noite, Mamãe

29/02/2016

Boa Noite, Mamãe | Nota: ★★★★★ | Estreou em 25 de fevereiro de 2016
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak 


A trama inicia apresentando os gêmeos Lukas (Lukas Schwarz) e Elias (Elias Schwarz), dois meninos solitários que gostam de contemplar o ambiente natural e deserto onde vivem, próximo da casa deles. Então a mãe deles chega em casa, interpretada por Susanne Wuest, e está com a cabeça enfaixada pois sofreu um acidente. Desde o início Elias e Lukas acham aquela mulher muito diferente da mãe deles, a aparência e a atitude, e o relacionamento deles vai se perdendo até aquela mulher se tornar uma completa estranha.

A abordagem do gênero terror adotada pelos diretores e roteiristas (Severin Fiala e Veronika Franz) é bastante cética e criativa, abandonando os já estabelecidos clichês do mundo sobrenatural e explorando o infinito potencial da imaginação do universo infantil. As construções do cenário e da personagem da mãe seguem uma linha de estranheza e incômodo, como se a perda da identidade da mãe fosse algo de toda a família, e a mãe também estivesse buscando se encontrar, também perdida, vagando por aí mas dentro de si, não fora como os meninos. A mãe lembra muito a enfermeira da franquia de jogos Silent Hill, que também virou filme em 2006 e teve uma aparição dessa criatura de cabeça enfaixada e corpo esguio. O filme não se utiliza de jumpscares nem do período da noite para instigar o medo no espectador, não é necessário. A câmera lentamente segue os gêmeos por suas andanças, no ambiente selvagem, onde a coragem dos mesmos para andar sós nos mais estranhos lugares, nos faz sentir medo por eles.


O filme gradativamente vai se tornando um thriller psicológico, girando em torno de uma culpa que não pode ser eliminada. O thriller, pela abordagem clássica, é um gênero de filme que explora a metaforização da moralidade humana, ou seja, a culpa católica (na esmagadora maioria dos filmes) se personifica em monstros ou criaturas sobrenaturais antropomorfizadas e estas “matam” os protagonistas pecadores. As pessoas que morrem primeiro em thrillers são as pessoas que fazem sexo ou conduzem algum outro ato “pecaminoso”, e o “mal” (monstro) os “pune” (mata) e nós a audiência nos sentimos moralmente vingados com isso. O moralismo católico é uma grande força motriz para estabelecer os arquétipos desse gênero sombrio e deveria existir nos filmes de hoje mas, pena, aparece cada vez menos. Pelo erro irreparável cometido e que abalou toda a família, Lukas e Elias decidem punir essa intrusa em suas vidas e a mãe, de alguma forma, pune a si mesma.

Um elemento simbolicamente fortíssimo nesse filme é a dualidade, a duplicidade, em contraste com a unicidade. A duplicidade, simbolicamente, representa o equilíbrio, a completude, a ordem, dois olhos, dois braços, duas pernas, dois pulmões, o céu e a terra, a água e o fogo, o bem e o mal, o homem e a mulher, a natureza em oposição ao criador, o eco, o reflexo, a sombra, o conflito, etc.


A unicidade, em contrapartida, representa a incompletude, a solidão, a desordem, um cérebro confuso (“duas cabeças pensam melhor do que uma”), o coração perdido, uma boca que só não se comunica, o ser, a essência de Deus, a essência criadora, etc. Então a mãe representa a essência criadora em contraste com seu filho bom e seu filho mau, um filho e uma sombra, e os três simbolizam o ciclo completo daquela relação, o nascimento (ou renascimento), apogeu, crise e morte. Na casa também é possível ver esse contraste entre dualidade e unicidade, com móveis ou estruturas (cadeiras suspensas, camas, dois lances de escadas) que se contrastam com a imagem una e perdida, desfocada, da mãe em retratos pela casa e em vídeos.

Inovador, muito bem construído, surpreendente e belo. Imperdível.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.