Cine Cult: Anomalisa

29/01/2016

Anomalisa | Nota: ★★★★★ | Lançou em 28 de janeiro de 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Lucas Silva


Exausto pela mesmice que se tornou sua vida e atormentado por um remorso de dez anos, Michael Stone (dublado por David Thewlis), aproveita uma viagem para Cincinatti, onde tudo começou, para buscar reparar seu erro. Seu erro foi abandonar um antigo amor, Bella, e agora ele deposita nela a sua escapatória do vazio que se tornou sua vida. Com o tempo se nota que todas as pessoas possuem o mesmo rosto, que parece ser o rosto de Bella, e tem a mesma voz de homem, essa voz seria um mistério ou simplesmente não é relevante. Talvez a voz signifique que ninguém consiga alcançar Michael e os rostos todos lembram Michael de seu passado culpado. Assim sendo, ele aproveita o fato de que terá que dar uma palestra em Cincinatti e telefona para Bella para tentar reparar seu erro, mesmo não tendo a menor ideia de como fazer isso.

Ele e Bella se encontram, mas o que ele vê é uma mulher ainda ferida e vulnerável da qual ele não pode mais se aproximar. Ela não pode salvá-lo. Michael segue em seu desespero solitário murmurando o dueto das flores de Lakmé, tentando se distrair, até que ouve uma voz diferente das outras, a voz de Lisa, Anomalisa, e segue a voz desesperado pelo corredor do hotel. Pode-se dizer que Charlie Kaufman possui uma abordagem de roteiro bem padrão, com ótimos diálogos e um drama que se mescla com comédia de forma primorosa. Sua comédia gira em torno de diálogos muito inteligentes e diálogos (e também cenas) que utilizam o recurso do oversharing, ou seja, um personagem que compartilha demais coisas pessoais que não precisava compartilhar.


Gags visuais são outro recurso e se mesclam com a “piração” do filme, por assim dizer, pois os personagens de Charlie Kaufman costumam estar em realidades muito frágeis e constantemente, e o roteiro as faz ruir, simbolizando as crises psicológicas dos personagens. O filme utiliza o recurso do sonho para mostrar as pirações de Michael, transmitir para nós como ele está se sentindo e funciona muito bem. Os personagens são reais, o texto do diálogo traz a verdade dos personagens, as inseguranças, os medos, as preocupações, etc. Como foi baseado em uma peça de teatro o filme é bastante curto, o que não necessariamente é ruim, mas deixa bastante coisa no ar.

A animação é com bonecos em stop-motion, bastante realistas diga-se de passagem, e é bastante fluida. O elemento que deixa claro sempre que se trata de bonecos é um corte que se faz da face, separando um grande pedaço do rosto do resto da cabeça, para encaixar diferentes bocas e criar a fala e expressões faciais, e obviamente Charlie Kaufman brinca com isso. Quem conhece o trabalho de Kaufman e vê os bonecos de stop-motion já sabe que ele não se aguenta, tem que ter uma piração onde o boneco desmonta e etc. Kaufman costuma transmitir ou que o personagem é patético porque fala demais e compartilha demais, oversharing, ou porque pensa demais e assim ele desmorona de dentro pra fora. A nudez ou os prantos caracterizam visualmente isso e no caso da animação aqui existem ambos, mas tanto a nudez quanto os prantos se apresentam como elementos sinceros dos personagens e nos fazem identificar com eles. Através de uma movimentação fluída capturamos muitos elementos humanos nos personagens.

A única coisa que faltou foram as personagens de mesmo rosto falarem apenas “Malkovich”, mas fazer referência a si mesmo é algo que se espera no mínimo de um gênio dos blockbusters como Michael Bay, não de um gentleman como Charlie Kaufman. Um filme excelente e real. Recomendado.




Um comentário:

  1. Nossa, que diferente. Olhando assim me dá um pouco de medo por ser diferente, mas daí eu me lembro do filme das galinhas e elas também eram diferentes e não dá para deixar de assistir só porque é um estilo de animação feito de uma forma que não acostumada a assistir.

    Beijos,

    Greice Negrini

    Blogando Livros
    www.amigasemulheres.com

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