Cine Cult: Olhos da Justiça

11/12/2015

Olhos da Justiça | Nota Final: ★★★ | Estreou em10 de dezembro 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak 


Um remake de obra argentina de mesmo título (em inglês pelo menos), o filme fala sobre a impossibilidade de ser imparcial quando as injustiças da vida acontecem conosco, não com o resto do mundo. Na versão americana Ray (Chiwetel Ejiofor) é um investigador da equipe antiterrorismo que trabalha junto com dois amigos, Jess (Julia Roberts) e Bumpy (Dean Norris). Em 2002 entra uma nova pessoa na equipe, a advogada Claire (Nicole Kidman), por quem Ray se apaixona imediatamente, com toda razão. Eles começam a trabalhar juntos e Ray descobre que Claire é casada, transformando aquele sentimento em algo platônico. Um dia eles se deparam com um caso de homicídio que pode ser ligado a antiterrorismo e vão investigar, descobrindo que a vítima em questão é Carolyn (Zoey Graham), filha de Jess.

Aqui o filme começa e o resto é semelhante tanto na versão americana quanto na original argentina, o que muda na argentina são as coisas anteriores a esse incidente. Ray na versão argentina se chama Benjamin (Ricardo Darín, obviamente), a sua paixão platônica se chama Irene (Soledad Villamil) e quem morre é na verdade a esposa de uma pessoa sem conexão alguma com o protagonista, mas tem a mesma trajetória e personalidade de Jess, o jovem Ricardo Morales (Pablo Rago). Aqui a coisa que dá contexto ao problema em capturar o estuprador é, ao invés de antiterrorismo, o fato que a versão argentina se passa em 1974, na ditadura da argentina.


O roteiro da versão argentina é bem melhor, bem mais amarrado e fechado, com arcos de personagens mais esperançosos dada a temática da obra. A versão americana é americana demais, as coisas se resolvem na porrada ou na bala, enquanto a versão argentina possui uma pegada bem mais universal e se comunica melhor com o público. A versão argentina é mais machista, portanto mais sincera, e quando a personagem Irene se opõe ao antagonista machista e estuprador, ela tem bem mais força do que quando a sua contraparte. Claire faz o mesmo, pois na versão americana o machismo é maquiado e a cena do confronto tem força, mas parece mais uma das inúmeras tentativas do filme em se vender como algo digno de elogio.

O romance platônico entre o protagonista e a advogada inteligente, talentosa e prestes a se casar é bem intenso e sincero na versão argentina, mas porque respeita o tempo do espectador em entender as dificuldades da situação. Na versão americana essa interação é mais sóbria, tem menos drama, menos emoção, mas tem emoção, sutil, bem real até fazendo o romance da versão original parecer meio romântico demais; mas ainda tem muita força apesar disso. A diferença chave entre ambos os filmes é que na versão original tudo gira em torno de Benjamin encontrar dentro de si a coragem para ser feliz, ao consertar a si próprio depois de perceber que é impossível consertar o mundo corrupto em que vive.


Na versão americana tudo gira em torno de Jess, de como Ray e Claire (parecendo ambos os nomes simbologias para luz ou claridade) se tornam os cúmplices daquela perda e os ajudantes de Jess enquanto ela carrega esse ódio e rancor pela perda de sua filha. Então, o arco na versão americana gira em torno de consertar Jess por não poder consertar o mundo corrupto, ajudar ela a encontrar a paz que precisa e o romance morre inconclusivo, infelizmente. Nesse sentido a versão americana é totalmente careta, colocando a família branca diante da felicidade do amor verdadeiro interracial e fechando o arco da perda da filha à la Busca Implacável: “I will find you and I will kill you”. Os personagens na versão argentina são mais carismáticos e tanto você quanto os personagens se importam de verdade quando eles morrem, e suas mortes são transformadoras para os protagonistas.

Na versão americana os personagens são meio lavados, talvez por não se tratar de um país caloroso e latino, e porque o ambiente onde os personagens convivem é bastante sério. Talvez pelos EUA serem um país mais conservador, eles levem esse tipo de assunto como terrorismo e estupro mais seriamente e o tom se torne naturalmente mais sóbrio. Na versão americana os personagens morrem e não te afeta em nada, e o fato de não te afetar se tornar uma força transformadora nos personagens é uma coisa bem frustrante. Ainda mais porque a pessoa que morre, Reg (Michael Kelly), é vilanizada desde o momento em que entra na história e nunca existe qualquer redenção da personagem, qualquer lado bom dela exibido, ela simplesmente morre e ninguém sente sua falta.

Os antagonistas são meio que a mesma coisa em ambas as versões, nem fedem nem cheiram e se eles são pegos ou escapam tanto faz, porque eles são estatística, são um em milhares, não ganham um status maior enquanto vilões na mesma estatura que suas vítimas ganham enquanto vítimas. A história é boa em ambos os filmes mas tem mais força na versão original. Recomendado.



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