Cine Cult: O Clã

09/12/2015

O Clã | Nota: ★★★★★ | Estreia em 10 de dezembro 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak


OCla As imagens de arquivo que abrem o filme sem qualquer mise-en-scène, apenas a imagem na tela, sem estarem em um aparelho de televisão em uma sala ou algo que sugira uma construção ficcional. Podem enganar alguns a pensarem que esse filme se trata de um documentário, mas logo o gênero de ficção se estabelece claramente. A trama se inicia e pouco a pouco vai revelando uma Argentina dos anos 80 que é praticamente um Brasil da ditadura do avesso, com partidos populares liderados pela frente militar que sequestra cidadãos mais afortunados e pede resgate por sua soltura. Aqueles que assistiram o incrível O Que é Isso Companheiro? (Bruno Barreto, Brasil, 1997), já sentem a diferença na relação dos cidadãos com a política, com as instituições e com a elite. Esse filme trata justamente disso, das instituições (família, exército, política, Estado) e de como essas elas começam a ruir por estarem podres, pouco a pouco.

A narrativa nos é apresentada pelos olhos, principalmente de Alex Puccio (Peter Lanzani), o filho do meio de cinco irmãos e o auxiliador das operações radicais partidárias de seu pai, Arquimedes Puccio (Guillermo Francella). Arquimedes, no filme parece ser um ex-militar que agora tem um comércio na cidade, uma loja esportiva e Alex além de trabalhar na loja tem uma promissora carreira no rúgbi, com chances de ir para o exterior. Por sua fama, Alex conhece filhos de homens poderosos do país e assim se torna o agente perfeito para as operações de Arquimedes, que sequestra os rapazes e os deixa em cativeiro na sua casa. A esposa de Arquimedes, Epifania Puccio (Lili Popovich), sabe do que acontece mas faz vista grossa, igual Alex. A irmã mais velha Silvia (interpretada pela linda Giselle Motta), o caçula Guillermo Puccio (Franco Masini) e o primogênito Maguila (Gastón Cocchialare) que foram para a Europa para escapar dessa situação.


A única da família que não parece ter qualquer ideia do que se passa é a irmã mais jovem, Adriana (Antonia Bengoechea). Alex começa a ter destaque enquanto atleta, a loja esportiva de seu pai que ele ajuda a gerenciar como funcionário cresce, ele conhece uma linda mulher, Monica (Stefanía Koessl). Ao se apaixonarem, decide se mudar de casa com o dinheiro que recebe por auxiliar em um sequestro para se casar e tentar se libertar dessa realidade terrível. A ditadura cai, as práticas de seu pai e seus auxiliadores se tornam ilegais, mas eles continuam e os superiores do partido avisam Puccio que não podem mais ajudar ele, a polícia começa a se movimentar. Alex não quer mais, ele e seu pai se desentendem, a polícia age e Arquimedes revela em meio a uma possível prisão perpétua para ele e Alex que tudo que Alex tem hoje foi obtido graças à ditadura.

 Se analisarmos o personagem Arquimedes enquanto radical revolucionário, podemos traçar um padrão muito mais eficiente que um radical revolucionário brasileiro (considerando os personagens de O Que é Isso Companheiro?), existe mais confiança cega e menos questionamentos do lado de lá que aqui. Existem diferenças de interesses, os argentinos se preocupam muito mais com a “plata” (o dinheiro) do que com ajudar companheiros, coisa que os calorosos brasileiros estimam mais. No geral, fazendo um paralelo simples, é possível ter uma ótima noção da lógica de pensamento de um idealista radical argentino, e a maneira como isso é apresentado e te insere no universo deles é excepcional. A família é retratada como uma clássica construção patriarcal onde o desejo egoísta do patriarca e suas práticas vão pouco a pouco desestabilizando a estrutura como um todo. Esse é um filme sobre as rupturas das estruturas institucionais por conta de um radicalismo irracional que busca um ideal inexistente.


A maneira como Alex, imerso em um ambiente familiar poluído por ideais radicais da ditadura de seu país, se assemelha a um mesmo Alex que tivesse ido lutar numa guerra em um país estrangeiro é incrível. A trilha sonora da época, popsongs americanas, surgem como uma máscara, uma falsa promessa de felicidade da juventude, em um país carregado de desesperança e loucura. A direção de arte é neutra, cores mergulham em tons pasteis e o filme como um todo tem uma tonalidade desbotada, amarelada ou esverdeada, remetendo ao passado e muito bem construído. As atuações, os diálogos, as frivolidades de dia-a-dia, também surgem como máscaras, pessoas que sabem o que o patriarca da família faz e corroboram com isso, como se fosse algo normal. A figura de Puccio nem se retrata como uma figura ameaçadora, como um patriarca opressor que instaura a lei do silêncio com suas ameaças, longe disso, ele apenas dialoga com seus familiares e o silêncio dos demais carimba a decisão, um silêncio menos conformista e mais politizado.

Um espectador acostumado demais com a lógica de abordagem radical brasileira que não se permitir perceber essas diferenças cruciais de abordagem pode achar que as personagens são fracas ou as motivações são mal construídas. Um filme excepcional em todos os sentidos. Recomendado.




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