Cine Cult: Macbeth - Ambição e Guerra

16/12/2015

Macbeth - Ambição e Guerra | Nota Final: ★★★★★ | Estreia em 24 de dezembro de 2015 
Texto: Lucas Simões | Revisão: Jonathan Humberto 


Uma versão cinematográfica da peça homônima de William Shakespeare, a peça escocesa que muitos acreditam que a simples menção do nome dá azar, também é a obra de menor duração do autor inglês. Já fora várias vezes adaptada para o cinema praticamente desde a origem da nossa sétima arte, sendo a primeira vez em 1908 e de lá teve diversas versões e adaptações para outros gêneros cinematográficos. A trama se passa na Escócia e se baseia em relatos históricos das guerras que ocorreram na Escócia, Inglaterra e Irlanda no fim do século XVI. Macbeth (Michael Fassbender) é um subordinado do rei da Escócia, o rei Duncan (David Thewlis), e após ter uma visita de quatro bruxas (Kayla Fallon, Lynn Kennedy, Seylan Baxter e Amber Rissmann) que profetizam um destino para ele que o atormenta e eventualmente o destrói.

Ele é atormentado pela culpa de seus atos escusos antes mesmo de os cometer, e quem o faz confrontar o próprio desejo é sua companheira, Lady Macbeth (Marion Cotillard). A profecia se realiza e isso faz Macbeth se sentir impotente e inseguro sobre suas conquistas e seu destino, e ele vai lentamente enlouquecendo. O gênero que vai para a telona é o gênero clássico da peça original, tragédia grega, que possui diversos elementos clássicos, dentre esses ser divididas em três partes, possuir linguagem elevada (ritmo e música) e personagens de condição elevada (deuses, heróis e reis) e finalmente ter uma conclusão triste, levando o herói trágico à morte ou à loucura. Entre temas da tragédia se classificam a sociedade, os deuses ou o destino, sendo este último o tema dessa obra.


As três partes da tragédia grega – prólogo, episódio e êxodo – são pontuadas pela cor no filme, sendo o prólogo azul, o episódio sem cor, normal e o êxodo vermelho alaranjado, cor de fogo. Uma parte crucial da tragédia grega é o coro, constituído no formato original de dançarinos ou cantores mascarados, sendo representados por uma personagem coletiva, sendo nessa obra representada pelas bruxas. O coro entra um pouco após o prólogo que apresenta os protagonistas e a situação da cena e possui a função de narrar a história, coisa que aqui não acontece da forma clássica. Aqui o coro surge como uma personagem de habilidade profética, as bruxas aqui narram o futuro de Macbeth na forma de uma profecia, narrando tanto o futuro dele quanto o de seu amigo Banquo (Paddy Cosidine), que pode ter uma relação com o deus Dionisio, ou “Baco”, o deus do vinho, que dentre outras coisas está ligado à loucura e à infusão do bebedor de seu vinho com a deidade, a noção de ser um deus, ou o tornar-se um deus.

Ter ciência da profecia de Banquo, que era diferente da sua e despertou em Macbeth um ciúme e um medo que de certa forma contribuíram para sua loucura. O destino irremediável e grandioso presenteado a Macbeth principia a o aprisionar e o tornar paranoico, rendendo o mesmo impotente diante do sábio conselho de sua esposa, Lady Macbeth, que pode apenas testemunhar o destino de seu amado e assistir a ela própria também definhar por conta dele. A estética do filme é de tirar o fôlego, o estilo de casamento entre imagem, diálogo e trilha sonora lembra as obras de Terrence Malik, com suas obras de silêncio poético e contemplativo como Árvore da Vida (2011) e Amor Pleno (2013). A fotografia se constitui de planos parados que criam quadros de composição com grandes paisagens, composições cenográficas que fazem alusão à mise en scene teatral e planos de personagem que ora são close-ups para enfatizar a performance dos atores que batem o texto da obra original, ora planos médios da cintura pra cima dos personagens que capturam ações ora compõem a imagem dentro das composições de imagem já citadas.


 A trilha sonora é orquestrada e se consiste em cordas (violinos, violoncelos, entre outros) e criam uma trilha que surge em momentos específicos e pontuam momentos de respiro após muito diálogo ser proferido e muitas ações serem tomadas, para que o espectador processe as informações da trama. A direção de arte como um todo é espetacular, simplista tal como as imagens e a trilha, consiste em peças de roupa e maquiagem que estabelecem as situações de guerra ou de paz, com pinturas de rosto, sangue, e em paz as personagens trajam roupas em tons escuros com exceção do rei e rainha que vestem cores claras e o rei que veste tons de laranja. Os mantos se apresentam nas personagens de Macbeth e Lady Macbeth como uma cortina de teatro que serve como metáfora de uma personalidade má oculta por trás dos panos, uma coisa falsa, um ato.

 Um filme incrível e impressionante em todos os sentidos. Imperdível.



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