Cine Cult: Tudo que aprendemos juntos

29/11/2015

Tudo que aprendemos junto | Nota: ★★★★ | Estreia em 3 de dezembro
Texto: Lucas Simões | Revisão: Lucas Silva


O filme já no início coloca-se como uma obra séria com uma sobriedade que paira em sua linguagem, na trilha, na interpretação, nos ângulos e nas cores. Câmera parada ou com movimentos sutis, pouco mistério de composição de imagem, tudo está claro e cristalino, a história se conta sem se omitir. Ritmo compassado, calmo, cotidiano, rotineiro, mesmo com amor, mesmo com excitação, mesmo com violência, nada abala o ritmo. O filme nos prende em sua caminhada ao lado desse personagem recluso em si, Laerte (Lázaro Ramos), enquanto ele se encontra preso dentro de um destino que fora escolhido pra ele, a música, e ele falha em seguir em frente por conta disso. No momento que ele entra em contato com crianças que escolheram a música, mesmo vivendo em condições de pobreza, isso começa a transformá-lo.

O filme se passa, ao que parece nos anos 2000, e retrata despretensiosamente uma realidade de hoje e de sempre, a sobrevida dos artistas. Laerte é um violinista que desde pequeno já tocava, coisa que seu pai lhe impunha, e assim ele se tornou um homem linha-dura que não tolera coisa meia-boca. Seu pai se mantém presente em sua vida, mesmo distante em outra cidade, e suas palavras pesam sobre ele como o destino indesejado que precisa se concretizar. Destino esse que se torna mais convidativo pela existência dos amigos, companheiros de música clássica. A coisa que o motivo de verdade a abraçar a vocação musical são os meninos da favela que tem aula de música com ele, contrastando a falta de escolha que ele teve em relação à música com a falta de escolha que essas crianças tem em relação a praticamente tudo.


A interpretação de Lázaro Ramos como um homem rígido mais por estar preso à rigidez de seu pai que da sua própria é tocante. Ele transparece o menino sempre contido que sai com as lágrimas, com os beijos, mas que quando fala e toca música se transforma no pai, no perfeccionismo, na cobrança, na rigidez e na eterna bronca. Ao entrar em contato com o jovem Samuel (Kaique de Jesus), todavia, Laerte vai pouco a pouco vendo nele o menino dentro dele próprio e aos poucos aquele homem linha dura que parecia ser seu pai, controlando seus atos, vai se revelando ser o homem Laerte. Samuel move Laerte a conquistar um espaço na música por ele próprio, por ser uma oportunidade de ouro que muitos que gostariam de ter e não terão.

O filme não dá tanto espaço quanto poderia para personagens femininas, mesmo que o protagonista seja negro e isso seja em si algo maravilhoso. A personagem da sempre linda Fernanda de Freitas presta ao filme apenas o papel de interesse amoroso, não protagoniza nada. As garotas da escola tem alguma mínima presença mas essa ofusca-se rapidamente pelos rapazes e suas coisas de rapazes. O próprio Laerte é assombrado apenas pela imagem de seu pai, sendo sua mãe pouquíssimo mencionada nos três ou quatro telefonemas que são realizados entre os dois. A transformação de Laerte se dá por conta do homem Samuel e não por conta de sua parceira amorosa ou outra mulher.

 A temática do racismo é inexistente, esse lugar onde Laerte mora e leciona parece ser um lugar maravilhoso e totalmente fantasioso. Existe um fato racial, uma tragédia comum que toma como alvo as pessoas da favela, negras e pobres, mas é rápido. O filme parece não querer mergulhar demais na temática sóbria da realidade factual, talvez por temer ficar dramático de uma forma negativa, triste, desesperançosa, e perder sua energia positiva e bela. O filme transita dentro das temáticas de crime e relações dentro da favela, com traficantes e etc, mas o tráfico em si não aparece, não se revela enquanto problema. Os alunos da escola não veem-se como adolescentes imersos na violência, nas drogas e na falta de estrutura. O filme nesse sentido é meio plástico, sem uma tangencia, uma conexão com o mundo real, aí o otimismo que o filme parece buscar se torna uma certa ilusão. Um filme belo e profundo. Recomendado.




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