Cine Cult: Malala

16/11/2015

Malala | Nota ★★ (Regular) | Lançamento: 19 de Novembro de 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak


O filme abre com o evento que lançou a jovem Malala Yousafzai no mundo, o atentado contra sua vida onde ela levou um tiro na cabeça e do qual ela miraculosamente sobreviveu. Daí ele volta ao início e conta a história de como Malala foi criada desde pequena e como seu pai, Ziauddin Yousafzai, lhe deu seu nome baseado em uma mulher inspiradora de um conto e isso se tornou a vida dela. Desde antes o nascimento de Malala, o Talibã já era presente no Paquistão, seu local de nascença, e já difundia suas crenças na busca por um verdadeiro Islã, instaurando um ideal fundamentalista e teocentrista no país.

Como nem todos os cidadãos do Paquistão concordam que o verdadeiro Islã representa o Islã perseguido pelo Talibã, iniciaram-se com o tempo várias divergências, motivadas sem dúvida pela influência global, que abriu os olhos de muitos para diferentes perspectivas, que não apenas a de seus conterrâneos fundamentalistas. Ziauddin era um dos cidadãos que acreditava em um Islã real, diferente do idealizado pelos membros do Talibã e sempre se manifestou publicamente a respeito disso, bem como outros como ele. O Talibã eventualmente passou a responder com violência a qualquer um que se opusesse aos seus ideais, pois claramente os opositores estariam envenenados pelo modo de vida libertino e infiel praticado em outros países, na crença deles.


Ziauddin nunca acreditou no silêncio e assim ele educou sua filha Malala a sempre falar, e a educou com mais ênfase que seus outros dois filhos, Atal e Khushal, talvez por não desejar para ela um futuro igual o de sua esposa, Tor Pekai. Malala por igual motivo deve ter se espelhado em seu pai para ser uma pessoa sem medo e que fala o que pensa, mas muito de seu comportamento mostra que ela se espelhou em sua mãe também, em outros aspectos. Narrativamente o filme é bem construído, como um todo, possui um bom ritmo e uma estrutura que prende o espectador.

O atentado abre o filme nos mantendo presos imediatamente e vai aos poucos nos imergindo na trama, mais na frente voltando a ele para enfatizar o evento que é muito importante para a história. É importante ressaltar que o Talibã falhou em matar Malala não por incompetência, mas por haver um certo código moral que fez o assassino hesitar, tanto que todas as garotas que foram atingidas por balas tiveram ferimentos superficiais nos braços, ombro ou na lateral da cabeça, no caso de Malala. Isso não foi ilustrado e o Talibã ficou marcado como vilão da história, e talvez eles sejam, mas para um documentário sobre algo tão sério, talvez mais imparcialidade e menos maniqueísmo fosse ideal. Malala é ilustrada como “the one”, a escolhida, a personagem do filme que chega e está destinada a mudar o mundo, e isso está saturado.


Quando o documentário se presta a esse papel de criar simbologias baratas, ele tira um pouco da seriedade dos assuntos tratados para entrar numa fantasia particular, adolescente e egoísta. Fora isso existem alguns pontos que reforçam uma necessidade do documentário de se auto-reforçar e esquecer da realidade e dos assuntos. Existem cenas que buscam pintar Malala como uma garota normal, como se houvesse tal necessidade, como se ela não fosse muito mais do que normal, como se ela não fosse normal e algo mais, como se houvesse algo de errado em ela ser uma nerd. A segunda coisa é o fato de o documentário se distanciar da personagem da mãe e focar muito mais na figura do pai, achando que o fato de se tratar de um país rígido com mulheres, justifica o filme também ser rígido com Tor Pekai.

Malala já tem sua voz, já a conquistou, qual o problema em estimular ou questionar a busca da voz de Tor Pekai também? O filme possui 100% de filosofia pedante de primeiro mundo nessa construção: vamos salvar as crianças, e só as crianças. Não se faz um contraste entre essas mulheres de gerações diferentes, mulheres de meia-idade e mulheres idosas. Malala pode fazer muito pelas crianças, mas e pelas mulheres que não são crianças? Não pode fazer nada? Um filme inspirador para o futuro, mas que não sabe olhar pra trás e que parece achar que pode tratar um assunto sério de uma pessoa extremamente relevante como se fosse um curta de faculdade.



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