Cine Cult: 007 - Contra Spectre

06/11/2015

007 - Contra Spectre | Nota:  (Ruim) | Estreia em 05 de novembro de 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Lucas da Silva


O filme inicia com um plano-sequência sensacional, extremamente elaborado, depois emenda em uma sequência de perseguição à la Jason Bourne, câmera tremida, no meio da população da cidade, muita excitação. O vilão, que não sabemos quem é, e provavelmente não importa de qualquer forma, entra num helicóptero que surgiu depois de um telefonema mas infelizmente para ele, James Bond (Daniel Craig), entra logo atrás. O embate no helicóptero em pleno ar é de tirar o fôlego, extremamente bem filmado e editado, porrada e mais porrada, todos menos James Bond morrem, o helicóptero despenca para a inevitável morte, “será que nosso herói escapará dessa com vida?”, “DÃ!!!”

Entra a abertura clássica que, diferente de Skyfall (2012) onde a narrativa que a precede introduz a temática do filme que a abertura clássica introduz maravilhosamente, com efeitos especiais bonitinhos e música pop, não existe referência prévia pra te imergir na música nem no tema do filme. Por essa lógica, o filme já começa errado porque ele não tem tema, pior, ele vai contra o crescente que vem vindo, o amadurecimento do personagem de Bond, que em Skyfall estaria mais velho, mais abatido pelo tempo, e nos mostra um James Bond que parece nada com o Bond abatido do filme anterior. Esse filme só na abertura já parece um Quantum of Solace parte 2.


A narrativa deslancha do modo tradicional de filmes de espionagem britânicos, muita burocracia, politicagem, “trairagem”, “maracutaias”, vilões envolvidos com mocinhos e etc. O filme dá um tiro de bazuca no próprio pé ao nos apresentar um roteiro que é absurdamente ofensivo de tão mal executado. O roteiro parece que se perde entre manter a nova essência do James Bond de Daniel Craig, mais humano e propenso a erros, e resgatar a antiga essência dos outros James Bond, um James Bond mais glamoroso e indestrutível. Depois de Skyfall faria mais sentido que esse filme fosse sobre dois velhos de guerra, Bond e Oberhauser (Christoph Waltz), e como ambos percebem que estão velhos demais para esse jogo, e que o jogo mudou. O roteiro parece querer que Bond vença a qualquer custo, tirando o impossível de dentro da cartola e também parece querer fazer uma média com o público feminino, não deixando as personagens femininas nuas, nem as matando, nem as transformando em traidoras. Parece que o roteiro quer agradar todo mundo e não quer contar uma história. 

As motivações dos heróis e dos vilões são tão maçantes, tão adolescentes, tão simples de resolver com um telefonema e duas cervejas que as explosões e tiroteios parecem muito excesso de drama másculo por pouca coisa. As pessoas são tão carentes que transam duas vezes e se apaixonam perdidamente e aí o roteiro vai lá e introduz aquele bom e velho clichê do herói que precisa saber a hora de parar e “estabelecer raízes”. Outro clichê que vem é o de o roteiro querer amarrar todas as tramas dos filmes anteriores a esse pra forçar toda a baboseira a fazer sentido, mas nem explicar o que é e como funciona cada coisa no filme em si eles fazem. É um mal de filmes britânicos, falam uma vez da coisa e se você pegou você pegou, se não vai ficar boiando o resto do filme. É um mal que esse filme falha em executar bem, e a coisa se torna um monte de nomes que você não sabe a quem se referem e nem liga e é isso.


O filme é visualmente estonteante, tanto na composição simbólica da fotografia, estabelecendo a força das personagens, dos antagonistas, a beleza das mulheres, os conflitos, as dificuldades, tudo isso através de luz e posicionamentos espaciais. Visualmente o filme prende, atrai, estimula e agrada com belas composições com uma forte simbologia fácil de perceber, ilustrativa, que reforçaria o aspecto narrativo do roteiro – caso esse existisse. 

O filme força um pouco a barra quando a composição inclui a personagem Madeleine Swann (Léa Seydoux), colocando a personagem virada de costas para a câmera ou trocando as vestes da personagem para uma camisola por mera conveniência, parece. Com a personagem Lucia Sciarra (Monica Bellucci) o foco é maior em seu rosto e se enfatiza a troca de diálogo entre ela e Craig, e talvez não haja interesse em nada abaixo de seu pescoço pelo fato de a atriz já estar com as linhas da idade claras em seu rosto. 


A construção que a imagem faz dos personagens é interessante, mas decepcionante, sendo a mais decepcionante a de Oberhauser, o vilão do filme, que é poderoso e imponente, misterioso, no início, e vai sendo desconstruído pouco a pouco, ferido, subjugado, até sua máscara rachar. A máscara nesse caso é traduzida na maquiagem em seu rosto que o deixa com uma grande cicatriz no rosto. O problema na queda de Oberhauser é justamente o fato de parecer que Skyfall nunca existiu, que Bond não está decadente, no fim de carreira, e seriam ambos lutando em um mundo forte demais para eles. Bond parece estar no auge da forma, pronto para amar de novo, pronto para salvar o mundo mais incontáveis vezes, ou seja, zero verossimilhança. 

A direção de arte de forma geral é igualmente estonteante, estabelecendo paletas de cores variadas dependendo do momento do filme e rejuvenescendo nosso olhar a cada nova mudança de localidade. Aí fica claro que a fotografia e a direção de arte estão desesperadamente buscando redimir a bagunça catastrófica que é o roteiro e o diálogo do filme, coisa que eles passam longe de fazer.

Um filme bom pra você deixar passando de fundo quando estiver dando uma festa.



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