Cine Cult: A Travessia

07/10/2015

A Travessia | Nota ★★★★★ (Excelente) | Estreia em 8 de outubro de 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak 


Sempre que seus olhos passarem sobre o nome Robert Zemeckis saiba que você está diante de algo digno de, no mínimo, um Oscar. O filme fala sobre o evento real, a travessia realizada de uma torre à outra do World Trade Center, e o personagem real, Philippe Petit ( Joseph Gordon-Levitt ). Petit se descobre artista muito cedo ao entrar em contato com o circo, assistindo uma apresentação dos White Devils, e fica completamente apaixonado pela corda bamba. Petit começa a praticar a corda bamba e mais e mais se envolve com as práticas circenses, negligenciando completamente os desejos de seus pais. Ele vai atrás do patriarca dos White Devils, Papa Rudy ( Ben Kingsley ), para que ele o ensine a montar e a andar em uma corda bamba. Petit infelizmente se mostra muito rebelde e arrogante e isso faz com que ele seja expulso tanto do lar de Papa Rudy, seu mentor, quanto de seu próprio lar, então ele se muda para Paris.

Paris ele se torna um artista de rua e conhece uma outra artista de rua, Annie ( Charlotte Le Bon ), e logo ela cai em seus encantos. E é quando ele começa a atuar em Paris que ele descobre seu sonho, quando vê em uma revista uma imagem das torres gêmeas, e a altura absurda das mesmas. Ele simplesmente precisa fazer isso. Annie se torna sua primeira cúmplice em seu sonho, a primeira de muitos, e esses cúmplices serão as peças chave na realização desse ousado sonho. Antes de falar do filme em si vale refletir acerca do contexto social da época. O filme se passa na França e nos Estados Unidos nos anos setenta, e aí existe uma certa questão interessante de ser colocada. A França sempre foi uma nação orgulhosa, gabando-se de ter a melhor moda, a melhor arte, a melhor comida, os melhores vinhos e assim vai.


anos 70 são um forte ano para os EUA e para o mundo politicamente, pois marca a época da maioria das ditaduras em países menos desenvolvidos e o fim da guerra do Vietnã. Os EUA sempre se fortalecem após as guerras pois depois que mostram do que são capazes sua superioridade fica subentendida nas negociações políticas futuras. O filme pode ser considerado com um tema que tem uma raiz que brota desse contexto, afinal se trata da construção do World Trade Center, o prédio que é “100 metros mais alto que a Torre Eiffel” , ilustrando essa busca pela dominação cultural que os EUA fazem desde sempre. Petit nesse sentido se torna um personagem bem mais coerente, pois a França nessa época possuía uma forte corrente antiamericana por conta dessa disputa cultural, coisa que ele deveria compartilhar se não fosse um artista, se não fosse uma decepção para seus pais, ou se desse a mínima para política. Obviamente o contexto político não foi explorado por razões óbvias, mas ele existe de certa forma.

O roteiro é excepcional e ao mesmo tempo é um pouco decepcionante. Por quê? Bem, porque o roteiro segue demais o clássico cânone de Hollywood, até mesmo onde não precisa, até mesmo onde é tolice usar certas construções. Este crítico se refere ao fator da incerteza, quando o diretor do filme insere informações e eventos que colocam uma pulga atrás da orelha do espectador. “E se ele não conseguir?” , “E se o protagonista não vencer?”, “Será que ele vai conseguir?”. Ora, Philippe Petit, o homem real, está vivo hoje, então obviamente ele conseguiu, e não seria feito um filme sobre um homem que tenta uma coisa assim e falha. Mas o costume de Hollywood é esse, os roteiros funcionam assim, eles te plantam incertezas pra te prender mais, o que funciona, claro, mas mesmo assim é desnecessário. A maneira como eles utilizaram especificamente nesse filme é meio gratuita e incômoda. É como se você fosse assistir um filme que o título é “A mulher compra três sapatos” e aí em determinado momento o diretor coloca a pulga atrás da sua orelha e você fica “Mas será que ela vai comprar três sapatos mesmo?”.

É óbvio que ela vai comprar três sapatos! Como é o nome do filme? Mesmo assim a incerteza te pega e te prende, mas não deixa de ser dispensável. O problema maior com essa incerteza que o roteiro utiliza é que ela é preguiçosa, porque ela não é um cúmplice que se revela um traidor, por exemplo, o que é mais potente na questão dramática. Talvez houvesse o desejo de respeitar a fidelidade do acontecimento real mas sinceramente a incerteza que eles inserem no filme é besta demais pra merecer qualquer espaço. O filme possui um grande mérito em nos permitir ter na memória uma belíssima lembrança de um local que foi o infeliz palco de uma tragédia. Nesse filme podemos olhar para as torres gêmeas como um lugar que um dia foi o palco de algo belo e que também merece ser lembrado.

Assistam em IMAX 3D , por favor. Extremamente recomendado.



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