Cine Cult: A Colina Escarlate

14/10/2015

A Colina Escarlate | Nota ★★★ (Bom) | Estreia em 15 de Outubro de 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak


Do diretor orquestrador de gêneros, Guillermo Del Toro, chega mais um filme que apesar de manter uma coerência de gêneros, peca em fatores básicos. Primeiro, vamos resumir a história. Edith Cushing (Mia Wasikowska), uma aspirante a escritora, busca publicar seu livro que narra uma história com fantasmas. A própria Edith possui um dom de ver fantasmas, manifestado quando ela tinha dez anos e viu o fantasma da mãe, que a alertou a respeito do perigo da colina escarlate. Edith não é levada a sério por ser mulher e precisa driblar as barreiras do machismo, nisso tem a ajuda de seu pai, Carter Cushing (Jim Beaver), que sempre a apoia de coração. Além de seu pai, Edith pode contar com um amigo leal, por quem seu pai tem muita afeição, o doutor Alan McMichael (Charlie Hunnan ou, como este crítico prefere o chamar, o Channing Tatum da Europa), e que sente uma grande afeição por Edith, talvez até amor.

Nenhum dos dois porém parece entender o que Edith quer com seu livro e aí surge, num momento totalmente conveniente, já mostrando um de muitos furos do roteiro, um homem maravilhoso, europeu, lindo e perfeito, que entende o livro de Edith, e este homem é Thomas Sharpe (Tom Hiddelstom). Thomas possui uma irmã que sempre está com ele, Lucille Sharpe (Jessica Chastain), e que o ajuda a conduzir seus negócios e fechar seus acordos. Obviamente após um homem finalmente entender o livro de Edith, e como se trata de um péssimo roteiro, ela se apaixona por ele de cara e eles se casam. O pai de Edith era contra essa união mas ele foi convencido a mudar de ideia. Após se casarem ela se muda para morar com ele na Inglaterra e depois de algum tempo descobre que o lugar onde ela mora agora se chama (tan tan tan tan!) Colina Escarlate. Isso indica que as palavras da mãe de Edith eram um aviso, e outros fantasmas também vão surgir para avisar sobre outras coisas mas não vai adiantar nada.


É terror e o roteiro é ruim, não há o que se fazer. O gênero é terror, mas como Del Toro é um diretor de vários gêneros, o tom fica mais suave, misturando-se no mesmo um romance trágico, um filme de suspense, um filme policial, mas a atmosfera de terror se mantém sempre. Mesmo havendo um bom domínio da questão dos multi-gêneros, o terror do filme possui a mesma pegada do O Labirinto do Fauno (2006), que pode ser descrita como um filme de terror para crianças, ou um conto de fadas de terror. A diferença é que ao invés de um conto de fadas é um romance no estilo Jane Austen, de terror. Pela direção o filme merece todo mérito pois tudo funciona e se complementa muito bem, a qualidade desse tudo porém tira um pouco da experiência do filme.

O roteiro, pra começar, é cheio de furos, cheio de recursos baratos e preguiçosos. Primeiro, a mãe de Edith e todos os outros fantasmas de repente tem a capacidade de ver o futuro pois a avisam sobre coisas que não aconteceram ao invés de falar sobre coisas do presente, o que ajudaria mais na atmosfera de terror. Segundo, é o clássico mas já batido recurso chamado de MacGuffin, que é uma introdução de um elemento no roteiro que é irrelevante para a história principal mas precisa existir para que se chegue nela. O MacGuffin desse filme é o livro de Edith, que é relevante nos primeiros minutos do filme mas depois perde totalmente a relevância. Um filme que é o grande exemplo da utilização desse recurso é Psicose (1960), inclusive fica no ar muita coisa que parece fazer referência ao clássico de Hitchcock, sendo o próprio McGuffin uma referência talvez proposital.


O segundo filme que este parece fazer referência é O Iluminado (1980), pelo fato de a protagonista ser uma escritora, ter visões e pela cena de conflito final se dar com armas brancas na neve após uma perseguição sangrenta pelo casarão. O clássico de Kubrick também parece ter influenciado o design dos fantasmas nesse filme, que também é o design da fantasma do filme produzido por Del Toro chamado Mama (2013). No filme O Iluminado existe uma cena onde o personagem de Jack Nicholson entra em um banheiro onde tem uma mulher idosa absolutamente assustadora, ela poder ter sido uma inspiração nesse sentido, mas é apenas um palpite. Também existe uma estética emprestada do clássico de Kubrick que é o movimento de câmera fantasmagórico e lento pelos corredores, revelando monstros e caminhos que os personagens trilham, os corredores e espaços lineares longos, que são uma marca registrada de Kubrick, e também estão nesse filme.

Agora a atuação. Mia Wasikowska é a aprendiz padawan de Keira Knightley na arte de ser mega gatinha e ficar linda de vestidos mas não ter uma atuação poderosa. Ambas acabam ficando muito bem em papéis trágicos/românticos justamente porque elas não tem o papel de carregar as cenas ou a história, mas sim serem carregadas pelo inevitável. Isso também as torna ideais para filmes de época já que sua atuação sutil reflete uma certa verdade da época, de muitos floreios e dramas discretos. Agora Jessica Chastain, para o papel que ela precisa encarnar, cai como uma luva aqui justamente por ela possuir essa potência na atuação e ser a personagem que carrega a história enquanto a personagem de Wasikowska pega carona na potência dela.


Isso não quer dizer que a atuação de Mia é ruim, ela só não é forte para uma protagonista, coisa que é vício do gênero infelizmente, e da simbologia das cores de cabelos, porque as loiras estão nos filmes para serem lindas e as morenas estão nos filmes para serem fodas. Já Tom Hiddleston parece também preso a um arquétipo de personagem, pois ele é o camaleão, da mesma maneira que seu personagem Loki nos filmes da franquia Marvel, aquele personagem que você nunca sabe se está do lado do bem ou do mal. Pouco a pouco vai se revelando de que lado ele está e vai nos conquistando no processo, porque ele é muito bom nisso. A atuação de Hiddleston deixa claro que a sutileza presente no tom do filme impera como uma estética, pois seu grande sorriso e grandes olhos não se destacam em momento algum.

Quanto ao Channing Tatum da Europa não há reclamações, ele atua bem e faz uma boa contraparte ao personagem de Hiddleston e a coisa mais legal disso é que ao invés de eles virarem rivais, viram amigos. Um filme que faz um bom uso das ferramentas clássicas do terror e que, principalmente, não tem jumpscares baratos, e isso já vale o ingresso com certeza. Recomendado.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.