Cine Cult: Que horas ela Volta?

04/09/2015

Que horas ela Volta? | Nota ★★★★★ (Excelente) | Estreou no dia 27 de agosto de 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak


O filme já inicia com uma imagem que é a cara do Brasil, o jovem Fábio ou Fabinho, com seus seis ou sete anos, sendo cuidado pela empregada da casa Val, Regina Casé. Enquanto cuida de Fabinho, Val liga para sua casa perguntando de sua filha, Jéssica, que possui a mesma idade de Fabinho.

A cena inicial já introduz e marca o conflito extremamente real do filme, pais distantes dos filhos pela necessidade de garantir o sustento dos mesmos mas que acabam negligenciando sem querer o essencial que é o carinho e a presença. Estabelecido o conflito nessa maravilhosa cena inicial partimos para dez anos depois (num corte temporal a lá 2001: Uma Odisseia no Espaço) e observamos a rotina de Val enquanto empregada da família. Val e Fabinho (Michel Joelsas) mantém seu relacionamento de amor real e sincero depois de dez anos, sendo Fabinho tratado como um filho e Val tratada como uma mãe. Um belo dia Val recebe uma ligação da filha Jéssica, interpretada por Camila Márdila, dizendo que deseja ir para São Paulo, onde Val trabalha, para prestar vestibular.


Val relutantemente pede aos patrões, José Carlos (Lourenço Mutarelli) e Bárbara (Karine Teles), que permitam que Jéssica fique hospedada com eles durante esse breve período. Os patrões aceitam e Jéssica adentra a vida de todos com toda aquela ingenuidade e desconhecimento da hierarquia da Casa Grande e Senzala moderna, normal. Jéssica traz o questionamento para a casa, como um elo perdido entre o patrão e o servo, contradizendo as regras silenciosas estabelecidas pela hierarquia das classes sociais, da relação entre patrões e empregados, incomodando a todos. Assim sendo uma hora se torna evidente que Jéssica precisa se afastar daquela casa para que a “normalidade” se reestabeleça, o que acontece mas não dura muito. Com as estruturas abaladas, os conflitos e diferenças à tona, chega o vestibular e dá o veredito. O resto é história, e bem da bonita.

O roteiro lembra uma bela releitura de Cinderela, onde a gata borralheira, Val, sofre nas mãos da madrasta má, Bárbara, tendo apenas seu fiel amigo para todas as horas, Fabinho, para seu conforto. Tudo isso muda no momento em que a fada madrinha, Jéssica, chega para libertar Val de sua prisão da qual nem ela tinha conhecimento da existência. Bárbara é uma mulher poderosa e ameaçadora com um par de olhos verdes absolutamente penetrantes em close up, que lembram justamente aquele olhar sinistro e maléfico da madrasta má de Cinderela (1950), que também tem olhos verdes, diga-se de passagem. Bárbara se sente duplamente ameaçada, primeiro por Val que assumiu seu lugar de mãe de Fabinho e roubou seus afetos, segundo por Jéssica que sem ter intenção lançou encantos sobre o marido, José Carlos, ficando Bárbara sem homem algum. Bárbara mesmo assim possui tanto vilanismo quanto Val por ambas cometerem o mesmo crime, negligenciar os filhos pela necessidade de prover pelos mesmos, e ambas seguem por jornadas semelhantes ao longo do filme enquanto tentam resgatar esse afeto perdido nos anos.


José Carlos vê em Jéssica uma esposa ideal, que Bárbara nunca pôde ser, e seu casamento monótono o deixa suscetível a uma paixonite besta que seu jeito tímido expressam do modo mais romântico e adolescente possível. Fabinho nada mais é que um rapazote que é carregado pouco a pouco por esse carrossel de facilidades que é a classe média alta, fumando um baseado quando tem chance. Val traz nas costas essa personagem que existiu na vida de no mínimo metade do Brasil, a segunda mãe, a mãe que não batia, a mãe que não dava bronca, que só tinha beijos e abraços e comida. Que lavava nossas cuecas imundas sem reclamar e que por alguma razão não queria passar o natal conosco, por mais que implorássemos. A mãe que nos ensinou a existência desses dois Brasis, um Brasil de gente que vive fácil e um Brasil de gente que sofre demais. Esses Brasis não se tocam, essas são as regras, a menos que apareça uma Jéssica na história, uma maluca, que quer fazer o “impossível”. Essa é a personagem de Regina Casé, talvez a personagem mais real e universal possível.

Um filme que fala com todos nós, mesmo que só um pouco, pois todos nós estamos nele. Um filme que fala do Brasil sem ser cartão postal nem manchete de jornal, um filme que é fotografia de família. Imperdível.



Um comentário:

  1. O filme está sendo bem comentado, o que gera uma frande expectativa em mim de assistir a ele o quanto antes. Raramente costumo assistir a filmes nacionais, o que pretendo mudar já que temos uma grande quantidade de filmes bons por aí.
    Beijos.

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