Cine Cult: A Dama Dourada

12/08/2015

A Dama Dourada | Nota ★★★★★ (Excelente) | Estreia: 13 de Agosto de 2015
Texto: Lucas Simões | Revisão: Kamila Wozniak


O filme abre com uma cena simples de uma mulher posando para um quadro, para mais na frente revelar que essa mulher se chama Adele Bloch-Bauer (Antje Traue) e ela está posando para ninguém menos que Gustav Klimt, um grande nome da pintura simbolista. Adele morreu jovem mas antes de morrer conseguiu deixar uma forte impressão em sua sobrinha, Maria Altmann (Helen Mirren), que muitas décadas depois busca recuperar a pintura de Adele e outras obras que eram de sua família mas foram saqueadas pelos nazistas na Segunda Guerra. Maria busca a ajuda de seu sobrinho, Randy Schoenberg (Ryan Reynolds), que é um advogado amador que tentou abrir uma empresa mas faliu e agora procura emprego, conseguindo um com a ajuda de sua mãe e por conta de sua linhagem de peso.

Inicialmente Randy tem pouco interesse na proposta de sua tia e só se motiva a ajudar quando descobre que os quadros da família valem uma fortuna em dinheiro. Com o argumento do dinheiro ele convence seu chefe, Sherman (Charles Dance) a lhe dar alguns dias para ir até a Áustria com Maria e conseguirem a documentação necessária para avaliar se eles tem um caso ou não. Maria não gosta da ideia de voltar para a Áustria pois seu passado de perseguição enquanto judia na Segunda Guerra ainda a assombra. Ela decide ir com Randy pois se trata de bens da família dela que estão em um museu e eles devem ser devolvidos. Lá eles conhecem Hubertus Czernin (Daniel Brühl), um jornalista austríaco que os procura após saber da jornada deles e lhes oferece sua ajuda.


Como os representantes do país, em particular do setor cultural, não querem que as pinturas de Klimt, principalmente A Dama de Ouro (pintura de Adele), deixem a Áustria, eles farão de tudo para impedir Maria e Randy. Hubertus ajuda os dois a conseguirem documentos que comprovem que os quadros são legalmente de Maria através dos testamentos de Adele e seu marido Ferdinand (Henry Goodman) mas os representantes do departamento de cultura alegam que eles não podem prosseguir legalmente pela legislação austríaca. Ao final da viagem Randy se envolveu tanto com a história e cultura de sua família através das histórias de Maria e seu passado trágico que se sente envergonhado de ter ido por causa do dinheiro.

 Após chegar de viagem Randy se torna obcecado pelo caso de Maria porque agora se tornou pessoal para ele também, e ele faz de tudo para levar esse caso para julgamento. Randy é um personagem dedicado, meio abobalhado, pai de família e dono de um grande coração. Maria é uma mulher extremamente culta, dotada de uma etiqueta impecável que não lhe faz levantar a voz nem mesmo sob a mais profunda fúria, e eterna defensora de sua origem e sua família. Randy inicialmente é um homem focado em seu futuro, suas necessidades pessoais, ainda mais com uma filha pequena e outro bebê no caminho. Ele não possui uma noção de origem, de se importar com o lugar de onde ele veio. Maria por outro lado é uma mulher presa em seu passado, nas coisas que ela teve e foram tiradas dela, no futuro que foi arrancado de suas mãos quando ela era jovem. Ela possui uma forte noção de origem e defende com garras e dentes quem ela é, mas não consegue lutar pelo seu futuro se tiver que encarar seu passado.


No filme, um guia o outro dentro dessa jornada ao passado e quanto mais eles caminham juntos mais ambos se fortalecem. Ambos se encontram ao fim. Aqueles que estiverem familiarizados com os roteiros ganhadores de Oscars dos anos 90 como Perfume de Mulher (1992), Conduzindo Miss Daisy (1989) e com filmes em geral que tratam sobre o tema do Holocausto conseguiram ver onde o filme ia dar logo no início. Para os menos conhecedores desses formatos eles eram filmes que envolviam advogados ou filmes que envolviam duas pessoas completamente diferentes, uma representando nós, a plateia, e outra sendo excêntrica e charmosa, ou desprezível, mas sempre nos conquistando. Tudo isso está presente nesse filme e este crítico, alguns anos atrás, julgaria este filme como um mero “filme que quer ganhar Oscar”.

No entanto, com o tempo, um certo entendimento começou a surgir sobre esses filmes. No Brasil também temos isso, são os filmes que tratam sobre a Ditadura Militar, que seriam os meros “filmes que querem ganhar festivais de cinema nacionais”. Antigamente este crítico não achava que esse tipo de filme deveria ser feito, mas hoje a opinião é contrária. Existe uma razão para esses filmes serem premiados acima dos outros, uma razão muito simples: esses filmes são filmes sobre pessoas reais, sobre o mundo real. Não são filmes cobertos de efeitos especiais, explosões e cenas picantes, são filmes que falam sobre coisas importantes, sobre tragédias, sobre coisas horríveis que aconteceram ou sobre pessoas maravilhosas que existiram. É importante que esses filmes sejam premiados, que sejam assistidos. Precisamos lembrar deles, precisamos lembrar dessas pessoas, dessas coisas horríveis que aconteceram. “Lembre de nós.”, é essa a mensagem do filme para o público.

Então vamos lembrar. Um filme maravilhoso. Recomendado.




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