Cine Cult: Samba

06/07/2015

SambaNota: ★★★ | Estreia: 09 de Julho de 2015
Escrito por Lucas Simões | Revisão por Kamila Wozniak 


A primeira cena do filme constrói um movimento por dentro de um restaurante até a parte dos lavadores de louça onde se encontra o nosso protagonista Samba Cissé, interpretado por Omar Sy, pontuando a questão do preconceito já que os negros surgem no momento em que se atinge o “fundo”. Samba é um ajudante de cozinha que está há anos ralando para se tornar um cozinheiro, porém é um imigrante ilegal e se for descoberto pode ser extraditado para seu país e não poderá mais ajudar no sustento de sua família, que depende dele. Logo no início do filme Samba conhece Alice, interpretada por Charlotte Gainsbourg, que está voluntariamente trabalhando para ajudar imigrantes ilegais.

A mentora de Alice é a incrivelmente linda Izïa Higelin que faz a personagem Manu, uma advogada que trabalha ajudando a regularizar imigrantes ilegais, e ela deixa claro a Alice que ela mantenha distância. Alice não consegue seguir o conselho da amiga e vai pouco a pouco se rendendo aos charmes de Samba, como pés que se recusam a não dançar uma música cativante. O romance dos dois se torna constantemente interrompido pela realidade quando Samba não consegue se regularizar e passa a viver escondido, mudando de identidade até o ponto em que não consegue mais negar quem é, mas Alice está lá para salvá-lo.


Samba é como a própria dança, uma coisa difícil de explicar, que você apenas sente, intuitivamente, e deixa te conduzir. Um homem galanteador, engraçado, simpático, um verdadeiro “homem cordial”. Como um pisão no dedo do parceiro de dança, Samba tem dificuldade em controlar seu lado malandro e acaba colocando outras pessoas em confusão ou traindo a confiança daqueles em que confiou. Os erros cometidos vão deixando Samba inseguro e com medo de magoar Alice, o que transforma o antes galanteador em um homem tímido e retraído, sensível. Ao conhecer mais Alice e ver sua solidão, Samba consegue nutrir um sentimento de amizade que pouco a pouco evolui para talvez amor. Não se pode dizer ao certo, afinal se trata de Samba. O mentor de Samba é um brasileiro chamado Wilson, um já experiente “freelancer” ilegal de Paris, que guia Samba por sua jornada tortuosa em busca de paz, o salvando de suas próprias trapalhadas e de sua própria solidão.

Alice é uma mulher perdida buscando se reencontrar, após um incidente que a afastou do trabalho ela se recolhe em sua casa e passa algum tempo se recuperando. Faz algumas terapias como parte de seu tratamento, uma delas sendo serviço voluntário, onde conhece Samba. O incidente de Alice foi originado por estresse, um estresse que cresceu enquanto ela se afastava de todos ao redor dela, obcecada com seu trabalho. Agora, totalmente só, ela vê em Samba um primeiro passo para fora da solidão e não consegue não dar esse passo, como aconselhou Manu. Ela confessa o que sente por Samba, que ainda não retribui, e daí em diante eles começam seu lento caminhar até o amor, por assim dizer. Com o tempo Samba toma conhecimento dos motivos do afastamento de Alice e conhece cada vez mais a intensidade de sua sincera solidão, até o momento que ele não consegue mais se afastar dela e nem ela dele.


O gênero do filme na opinião deste crítico seria uma comédia romântica de erros. É uma comédia romântica onde algumas coisas trágicas acontecem que movimentam a história em diante, e existe uma realidade complexa por trás que é a questão da imigração clandestina. Coisas desencadeando eventos e motivações, como na comédia de erros, e muitas alusões à morte. Acredita-se que a sensação de comédia de erros está mais no fato que não existe o abalo do sentimento entre os protagonistas, Samba nunca faz Alice chorar, só a faz rir. A solidão não é romantizada ou pontuada como uma coisa ruim, está lá, assim como o sexo, discussões e todo o resto. O gênero principal se mantém como comédia romântica porque tem o nosso clássico e piegas primeiro beijo romântico do casal no final do filme, o beijo que grita “até que enfim!”.  Fora o fato que o filme gira em torno dos personagens e não dos acontecimentos e incidentes cômicos”, que caso fosse o contrário, aí sim seria uma comédia de erros total.

O nome “Samba” é uma clara referência a uma dança que talvez alguns de vocês conheçam, talvez não. O personagem Samba, que personifica esse movimento inconstante, essa dança que é quase uma alegoria ao bater do coração, à vida, transmite muito bem essa energia, essa força. Um filme cheio de Brasil e ao mesmo tempo sem Brasil nenhum. Inegavelmente, um ótimo filme.



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