Resenha: Hamlet ou Amleto?

27/04/2015


Um guia que conduz o leitor numa jornada irresistível pelo universo shakespeariano e por um dos textos mais importantes e centrais do teatro e da nossa cultura. 

O premiado escritor Rodrigo Lacerda faz uma adaptação que não apenas reconta a história do príncipe Hamlet, tal qual Shakespeare a escreveu, mas põe o jovem leitor curioso (e também o adulto preguiçoso) em contato direto com a força de sua poesia dramática. 

Muito mais que uma simples adaptação, o que temos é, de fato, um guia para Hamlet. O autor apresenta o original de Shakespeare - informando, comentando e mergulhando em todas as referências sobre cada ato e cena da peça - e o costura com a sua própria narrativa moderna e em linguagem contemporânea da história do príncipe dinamarquês.

Como diz Luis Fernando Verissimo no texto de quarta capa, "o que o Rodrigo fez não foi Shakespeare para os simples, foi ajudar a vencer os obstáculos e ir direto ao inesquecível, o fantástico e o poético. Hamlet depurado, um atalho para o encantamento". 

Ao final, o livro traz um apêndice com três breves seções onde Lacerda indica e lista: "Hamlets que li", "Hamlets que vi" e os "Elogios, críticas, paródias e anedotas sobre Hamlet".

Duvida que as estrelas sejam fogo, 
Duvida que o sol tenha luz e calor; 
Duvida da verdade como um jogo, 
Mas não duvides, nunca, do meu amor.

Hamlet é uma peça escrita ora em prosa, ora em verso e conta a história do príncipe Dinamarquês, Hamlet. Após perder o pai, o reio da Dinamarca, sua mãe se casa novamente com seu tio Claudius, gerando nele grande desconforto, ressentimento e dúvidas. Enquanto isso, em outro lugar, seu amigo Horácio e mais um soldado veem o espectro de seu pai, porém não conseguem se comunicar com ele.

Assim que Horácio volta ao palácio na Dinamarca, relata ao amigo seu encontro com o espectro, e Hamlet logo pede para que ele o leve até o local, pois quer conferir se o fantasma é mesmo o do pai e, caso seja, o que ele estaria fazendo vagando pela terra. Ao chegarem, seu pai aparece para ele e faz com que ele o siga. Ao perceber que estão sozinhos, o espectro pede ao filho que vingue sua morte, acusando seu irmão Claudius de tê-lo matado envenenado, enquanto ele dormia nos jardins, mas pede que com a rainha ele não faça nada.

Desse modo o desejo de vingança nasce no coração de Hamlet e ele volta em busca de justiça. Nesse ínterim, fingi-se de louco para com todos, para poder se livrar de qualquer suspeita, fazendo-os pensar, primeiramente, que enlouqueceu por amor de Ofélia, que foi obrigada a rejeitá-lo por seu pai, Polônio.

Em se tratando de Shakespeare, os personagens são bastante complexos, Hamlet começa sendo um jovem puro, que tem uma divisão muito exata da separação entre o bem e o mal, crendo que não é possível que ambas possam andar juntas; porém ao decorrer da trama, vai se deparando com angustias e aflições, uma mistura de sentimentos que fazem com que ele perceba o contrário. Claudius, o tio astuto, por sua vez, mostra-se o tempo todo muito político, fazendo parecer aos olhos dos demais ser um homem benevolente e justo, mas manipula todos ao seu redor em seu beneficio.

Um homem pode pescar com o verme que comeu um rei, e comer do peixe que se alimentou do verme.

Os personagens secundários são também muito interessantes, Polônio, por exemplo, é uma espécie de “puxa-saco” do rei, e mesmo do príncipe, estando sempre de acordo com suas decisões ou qualquer tipo de bobagem que digam, mas também se aproveita da loucura de Hamlet para tentar casá-lo com Ofélia. Já Ofélia, que aparece muito pouco, é uma moça bastante submissa às suas decisões, ama Hamlet, porém prefere seguir os conselhos do pai e acaba servindo de modo inocente às suas intenções e as do rei. Horácio, o melhor amigo, se mostra muito leal a Hamlet e é quase como se fosse aquele grilinho verde da consciência do amigo, agindo sempre com sinceridade.


Ser ou não ser, eis a questão.’ Para não conhecer o primeiro verso deste novo monologo, o espectador precisa ter um índice elevadíssimo de isolamento mental, social, cultural, profissional, geracional, animal, irracional e abdominal. O verso não é tão famoso por acaso. Ele diz muitas coisas ao mesmo tempo […]

Confesso que quando peguei esse livro, fiquei com medo pensando “Ai, meu Deus, será que eu vou entender esse livro? Eu consigo resenhar Hamlet?” Já havia tentando ler Tempestade, mas não consegui prosseguir, falas difíceis, além do que confesso que não me dou muito com a narrativa teatral (ainda mais do século XVII). Imaginem minha surpresa quando ao ler esse livro incrível, comecei a me deparar com a maneira maravilhosamente explicativa de Rodrigo Lacerda?

Pois, sim, a maneira como Rodrigo Lacerda inseriu as cenas, primeiramente colocando você como se fosse Hamlet, depois mastigando-as para que houvesse uma melhor compreensão do texto, colocando algumas curiosidades interessantes no início de cada ato, e também várias observações significativas, faz toda aquela sua triste preguiça correr para bem longe e você não querer mais largar o leitura. Faz muito sentido, não, a chamada do livro “Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos”?! Além do que, apesar de todas essas cenas descritas de maneira mais descolada, as falas em si são uma tradução mais fiel, então você não perde nada e nem precisa ficar com aquele receio de que o tradutor tenha estragado a obra.

Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia.

A diagramação é linda, a capa é linda, e o trabalho do Rodrigo é lindo é tudo lindo. Apesar de toda áurea de morte e tragédia (quem já leu ou viu o filme, aliás, quem conhece Shakespeare sabe como ele é trágico!), pela forma como é narrado, o peso de todo esse drama acaba sendo aliviado, mas sem perder aqueles momentos Hamletianos que te fazem refletir e sentir como ele. Se, assim como eu, você nunca leu Shakespeare por achar a compreensão difícil, ou por simples ócio, vale a pena dar uma chance a essa edição maravilhosa da Zahar e a esse grande escritor atemporal.

A justiça obtida pela vingança é muito frágil, pois varia de acordo com o ponto de vista.

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Rodrigo Lacerda
Editora Zahar: Twitter/Facebook

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