Resenha de Ouro: Agnes Grey

03/04/2015


Os fãs de literatura inglesa irão se deliciar com mais uma obra-prima parte da coleção das irmãs Brontë: Agnes Grey, de Anne Brontë. Publicado em 1850, o romance ultrapassa a Era Vitoriana com sua temática realista. A obra narra a trajetória de Agnes, governanta de famílias da classe aristocrática inglesa, suas lutas, questionamentos e claro, sua relação com o amor. Leitura imperdível para os apaixonados pelas outras irmãs Brontë e pela produção literária inglesa.

Agnes Grey é um romance vitoriano, narrado em primeira pessoa pela personagem que dá nome ao livro. Agnes começa falando de seus pais, contando que sua mãe, uma mulher de posição social elevada, por se apaixonar por um pobre clérigo, acaba sendo deserdada pelo pai. Esse fato é marcante, pois não poder dar uma vida confortável à esposa, é uma das frustrações que o clérigo carrega consigo. Logo no início, vemos o pai de Agnes tentando aumentar sua renda, mas, por infortúnio do destino, uma tragédia acontece, um navio naufraga com todos os seus investimentos e a família fica num estado ainda pior, o que além de agravar seu estado espírito, também agrava sua saúde.

Agnes tem uma irmã, esta é ótima artista, e se propõe a ajudar os pais com as vendas de suas pinturas, Agnes, no entanto, não possui esses talentos e decide que deseja ser preceptora. No início, ninguém acredita que ela seja capaz de exercer tal profissão, e ela não ganha apoio, todavia, Agnes acaba persistindo em sua ideia e, assim, sua mãe decide pedir a ajuda da família para que alguém possa arrumar um cargo de preceptora para a filha.

Como seria delicioso ser uma preceptora! Sair para o mundo; entrar numa nova vida; agir independentemente; exercitar faculdades sem uso […] 


Agnes finalmente consegue uma posição na casa de uma amiga de sua afetada tia Grey, a Sra. Bloomfield. A perspectiva de ser útil, se mostrar capaz não só para sua família, mas para ela mesma, e de conhecer novos ares, fascina Agnes que cria grades expectativas. Ela viaja, deixando a família para traz, e mergulhando num mundo novo, em um lugar onde não conhece ninguém, mas isso de modo algum a desanima.

Quando, enfim, Agnes chega à casa da família, a jovem descobre as dificuldades de sua profissão. Seus pupilos se mostram crianças difíceis e mimadas, sem um real interesse em querer aprender, e com uma verdadeira vontade de transtorná-la, pois estão sempre desafiando-a, já que sabem que ela não tem autorização para repreendê-los ou infligir castigos físicos neles. O único com poder de fazê-los se aquietarem é o pai, um homem rude, grosseiro e carrancudo. Porém, este pouco exerce a autoridade e Agnes se encontra em uma situação difícil, dado que se as crianças não se comportam a culpa recai sobre ela; se os repreende, porém, é tachada de má. Desse modo, a moça fica de mãos atadas sem ter muito que fazer.

O coração humano é como uma borracha, um pouco o faz inchar, mas muito não o faz romper.


Depois de algum tempo sofrendo nas mãos terríveis dessa família, Agnes acaba retornando para casa, sentindo-se fracassada, porém não desiste de sua independência e acaba encontrando outro lar. Lá ela também tem seus infortúnios, porém não passa mais pelos apuros de ter de aturar crianças malcriadas. Ela também conhece o Sr. Weston, um cura muito gentil e educado, por quem vai criando um sentimento de afeto.

A personagem central do livro é basicamente Agnes, considero todos os outros como personagens bastante secundários, pois não há nada muito aprofundado sobre eles. No entanto, ela é muito bem construída, conseguimos sentir suas dores e dificuldades, suas aflições e esperanças. Agnes é uma moça tímida, quieta e muito temente as suas crenças, há momentos no livro em que podemos ver sua doçura, quando ela retrata o horror ao ver como um de seus pupilos sente prazer em matar e torturar os pássaros; ou quando vê alguém maltratando outros animais, pois ela os considera como presentes da natureza, seres que sentem e merecem ser preservados.

É bobagem desejar a beleza. Pessoas sensatas nunca a desejam para si mesmas, nem a desejam nos outros. Se a mente fosse bem cultivada e o coração bem disposto, ninguém se importaria com o exterior.


Uma pergunta que talvez não queira calar e que alguns já me perguntaram é sobre a similaridade da obra com Jane Eyre. Eu, particularmente, não senti semelhanças com Jane Eyre, senão pelo tema que foi abordado como o modo como uma preceptora era vista, pois muitas vezes, pela posição que ocupava, Agnes acabava se tornando invisível aos demais, como se fosse menos que uma sombra. Mas, de resto, posso garantir que cada obra tem suas particularidades.

Creio eu que Agnes Grey é um romance muito mais realista, pouco se pauta no romance, tanto que só vamos ver Agnes Grey interessada em alguém quando passamos da metade da obra. Anne se preocupou muito mais em expor as dores da profissão, a ânsia em ser independente e creio que foi fantástica nisso. Sem dúvida alguma, essa tradução maravilhosa veio para encher o coração das amantes Brontëanas, pois ler Agnes Grey só me fez admirar ainda mais Anne Brontë.

O romance é fantástico, a diagramação do livro está linda, a capa é perfeita, tradução muito boa, o prefácio e o posfácio estão um primor (se todas as obras tivessem um!). Bem, o que eu posso dizer é que não vejo motivos para Anne Brontë não ser tão reconhecida quanto suas irmãs, pois tinha um potencial maravilhoso e uma voz feminista muito forte. Então, para finalizar, afirmo que eu amei o livro, e estou encantada com a história! Agnes Grey com certeza entrou para minha lista de prediletos.

https://www.facebook.com/literaturadeepoca?fref=tsAgnes Grey
Anne Brontë
Editora Martin Claret: Facebook

2 comentários:

  1. Olá Naira tudo bem? adorei sua resenha, primeira vez que te vejo aqui =D Já adorei! Eu adoro livros que trazem o foco principal em apenas um personagem, que até existam outros secundários mas que não tem grandes feitos dentro do livro. Pelo que li este me parece assim. Parabéns!

    Beijos,
    Joi Cardoso
    Estante Diagonal

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  2. Oie!!!

    Eu não conhecia este, ou pelo menos ainda não tinha lido nenhuma resenha. E eu confesso que AMO quando venho aqui e vejo essas resenhas maravilhosas de livros 'diferentes' dos que estão por aí. Me dá uma vontade de mergulhar nessas leituras... Neste caso de conhecer Agnes melhor, de saber mais da sua vida, das coisas que aconteceram com ela... Desse amor que só surgiu depois... Tudo!!

    Adorei!!!!

    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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